sexta-feira, 20 de abril de 2018

O fim da Era Heisei e seus reflexos na cultura pop

A Guerra dos Kamen Riders colocou em lados opostos
os heróis de diferentes eras do Japão.
O Japão, a mais antiga monarquia do mundo, terá um novo imperador em 2019. Alegando extrema fadiga devido à sua idade avançada, o Imperador Akihito, de 83 anos, irá entregar o trono a seu filho, Naruhito, em 30 de abril de 2019. Com isso, irá se encerrar a Era Heisei e terá início uma nova era na História do Japão, com nome a ser definido ainda. E isso também será referência para a cultura pop. 


É a primeira vez que um imperador do Japão renuncia ao cargo, que é vitalício. Aos que estão lendo esta postagem, saiba que estamos vivendo uma era historicamente importante. Em 2013, o então Papa Bento XVI foi um dos únicos de sua posição e renunciar, alegando falta de forças para prosseguir, devido à idade avançada. E agora, Akihito segue o mesmo caminho. Além do cansaço para cumprir as atividades de protocolo, há também o respeito à posição, abrindo caminho para alguém mais jovem e com mais vigor. Ainda que o cargo, na monarquia parlamentarista que é o Japão, seja meramente diplomático - ou decorativo, como apontam seus críticos. 

No Japão, existe uma tradicional contagem de tempo que leva em conta o período de reinado do imperador. Assim, a definição de Período ou Era Showa (ou "Período Iluminado de Paz") é referente ao reinado do Imperador Hirohito, que governou o país entre 25 de dezembro de 1926 e 7 de janeiro de 1989, data de sua morte. Tendo perdido seus poderes políticos com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, Hirohito foi sucedido pelo Imperador Akihito, cujo reinado foi chamado de Heisei (algo como "Alcançando a Paz") e se iniciou em 8 de janeiro de 1989. Futuramente, Akihito será chamado de Imperador Heisei.
O Japão prepara a despedida do Imperador, um cargo
mais diplomático, sem função administrativa e política. 
No campo da cultura pop, existe uma relevância ao se denominar os personagens por eras, especialmente nas franquias de super-heróis. Vale ressaltar que, apesar do Período Heisei ter se iniciado em 1989, os personagens Kamen Rider Shin (1992), ZO (93) e J (94) estão alinhados com os da era Showa. Eles foram criados originalmente por Shotaro Ishinomori e seguem parâmetros bastante ligados aos conceitos do autor. 

A partir de Kamen Rider Kuuga (2000), feito após a morte de Ishinomori (ocorrida em 1998), foram aparecendo criações de estúdio que se distanciam cada vez mais da atmosfera das obras originais (apesar de muitos conceitos serem preservados). Atualmente, Kamen Rider é uma poderosa franquia que já traz garantia de público fiel para os super-heróis da Toei


Da forma como foi feito, é como se, para o Universo Kamen Rider, Showa e Heisei fossem definições para "Era Ishinomori" e "Era pós-Ishinomori". Não por acaso, ele é chamado de "Rei do Mangá". Os Riders da era Heisei possuem visuais e estruturas narrativas bem mais ousados, mas os produtores e roteiristas tomam o cuidado de sempre resgatar elementos clássicos. 

As pessoas no Japão estão tão habituadas à contagem dessas eras que foi lançado em 2014 o filme Kamen Rider Taisen: Heisei Rider VS Showa Rider, que confrontou diferentes gerações de heróis. 

Com a franquia Ultraman ocorre algo semelhante. A rigor, o primeiro Ultraman da era Heisei foi o Ultraman Great (1990), filmado na Austrália. Porém, tanto ele quando seu sucessor Powered seguiam parâmetros "clássicos". Ultraman Neos e Seven 21, criados em 1995 (e que só ganhariam série em 2000), e Ultraman Zeas, que teve dois filmes em 1995 e 96, também entram como sendo ligados à Era Shows. 

Ultraman Tiga, de 1996, que inaugurou novos conceitos e abordagens, passou a ser considerado verdadeiramente o primeiro Ultra da Era Heisei. Isso porque a série teve enorme sucesso e se tornaria um bom gancho de marketing. Foi em Tiga que os Ultras passaram a ser definidos como gigantes de luz, afastando-os de modelos anteriores que os faziam serem vistos como ciborgues com trajes especiais.
Ultraman Tiga (1996): Iniciando oficialmente
a "Era Heisei" da Tsuburaya Pro. 
Se Great tivesse sido inovador e um grande sucesso (coisa que não foi), certamente seria oficialmente o primeiro Ultra da Era Heisei. Mas são apenas as franquias Ultra e Kamen Rider que dão importância à contagem de eras - ainda que feita de modo bastante particular. Em títulos como Godzilla, Gundam e outros, as referências às eras, quando aparecem, são apenas para situar as datas e não estabelecer conceitos. Aparecem em coletâneas, por exemplo, que costumam dividir as produções entre Showa e Heisei, para facilitar a consulta. 

E daqui pra frente, como vai ficar? As produções em andamento que ainda estiverem no ar quando ocorrer a transição não devem contar como sendo da nova era. Mesmo as séries vindouras, que já estão em produção e apenas não estrearam ainda, não devem ser consideradas como sendo dessa nova era. 

Com isso, pode ser que empresários, produtores, diretores e roteiristas já estejam planejando grandes eventos ou mudanças conceituais para marcar a passagem de eras. É a primeira vez que a transição de período é anunciada com antecedência pelo anúncio de que o Imperador atual vai abdicar. Mas, para os super-heróis japoneses, o novo período histórico pode não começar exatamente em maio de 2019. Afinal, os conceitos, como vimos aqui, são mais relacionados ao marketing do que ao preciosismo histórico oficial. 

14 comentários:

Detonation Uchiha disse...

O que me deixa mais curioso para a nova "era de Kamen Rider" é o tipo de visual e abordagem característicos, visto que muitos condenam as temáticas e os visuais carnavalescos das novas séries, sem sequer parar para assistir.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Detonation Uchiha!

Eu mesmo tinha muito preconceito com os Heisei Riders mais espalhafatosos. Quem ajudou a tirar esse sentimento foi o Usys222, com as postagens no blog dele onde destaca aspectos sombrios e tradicionais da franquia, bem como valoriza as ousadias e até as bizarrices, colocando em um contexto que funciona. O Danilo do TokuDoc também fala muito bem dos Riders modernos. Vi poucos, mas eles têm muito valor, sim.

Vamos ver como será a próxima "era" dos heróis japoneses.

Valeu! Abraços!

Stefano Barbosa disse...

Por que os termos Showa e Heisei não se aplicam nos animes?

Gustavo Henrique disse...

@Alexandre Já que você não costuma assistir muitos desses Heisei Riders, recomendo que você veja o Kamen Rider Gaim, ele pra mim é um dos melhores

Usys 222 disse...

Desde muito tempo atrás eu já não concordava com a divisão entre "Showa" e "Heisei" e via como fases mesmo. Por exemplo em Kamen Rider, eu via a "Fase de Toru Hirayama" (com visuais espalhafatosos e conteúdo mais voltado às crianças da época), a "Fase de Susumu Yoshikawa" (visuais sóbrios, funcionais, com conteúdo mais sombrio, pretensamente adulto) e agora vivemos a "Fase da Nova Geração" (variedade, de acordo com o produtor: Shigenori Takatera/Shinichiro Shirakura/Naomi Takebe/Takahito Oomori). Dividir entre "antes" e "depois" de Shotaro Ishinomori pode ser uma opção melhor. Por isso acredito que o fim da Era Heisei não teria tanta influência na criação dos seriados subsequentes. Pode ser um bom "gancho" para se implementar mudanças, mas não consigo imaginar como seria, uma vez que isso já é feito todos os anos.

Por isso concordo com o que foi dito: marketing acima do preciosismo. Questões práticas devem prevalecer para que as franquias continuem. Por isso a situação deve continuar como está por enquanto até que haja uma perda de fôlego, como aconteceu nas fases anteriores. Só que pelo que tenho visto, isso não deve acontecer tão cedo.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Stefano!

Não é bem que a contagem de datas não se aplica aos animês, apenas não é algo usado para diferenciar estilos ou conceitos diferenciados. Já vi uma coleção de CDs com temas de animês e tokusatsu da Era Showa e outro pegando a Era Heisei.

O uso mais intensivo e ligado ao marketing é mais percebido com Ultras e Kamen Riders.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Olá, Gustavo!

O Kamen Rider Gaim é quase uma unanimidade entre as pessoas cuja opinião eu levo muito em conta. O Usys222 (Casa do Boneco Mecânico), o Danilo (TokuDoc), o César (Blog Daileon) e o Ricardo Cruz (Danger 3/ JAM Project) falam muito bem dessa série. Então, uma hora eu vou tirar um tempo pra assistir. Duro é disciplinar o tempo.

Falou! Abraço!

Bruno Seidel disse...

Eu sempre tive muita curiosidade em ler mais sobre esse tema, pois sempre me chamou a atenção essa "divisão de eras". E quando o Imperador Akihito anunciou sua "aposentadoria", a primeira coisa que eu pensei foi sobre os reflexos que isso teria sobre as produções japonesas que eu tanto aprecio. Mas lendo esse post e os comentários, devo concordar que a influência do marketing e as estratégias comerciais são o que realmente pesam sobre as futuras produções, e não o período imperial vigente.

Foi dito aqui que as séries das franquias Kamen Rider e Ultra são as mais impactadas por essa divisão de eras e eu concordo. Mas tem um episódio de Akibaranger que chama atenção numa cena em que o Nobuo Akagi (o AkibaRed) se surpreende com a aparição de um vilão que ele mesmo identifica como "um típico vilão da Era Showa". De fato, o vilão em questão (o Doctor Z) assemelhava-se muito aos vilões dos Super Sentais dos anos 1980, como o Doctor Man de Bioman ou o Dr. Keflin de Flashman. Essa, por sinal, era uma das marcas registradas das séries Super Sentais daquela época: vilões com aparência humana.

Há quem diga que a próxima série Kamen Rider terá o elemento "fusão de Riders anteriores" como tema central, o que seria algo muito parecido com o que vimos em Ultraman Orb e Geed. E nem na franquia Kamen Rider isso seria uma grande novidade, uma vez que já tivemos o Kamen Rider Decade (2009) resgatando e emulando os Heisei Riders anteriores.

Sobre Kamen Rider Gaim, me junto ao time de entusiastas da série com carteirinha de sócio, camiseta e boné. É, realmente, uma das melhores produções da franquia de todos os tempos! Uma série que empolga do começo ao fim, que te faz aguardar ansiosamente pelo próximo episódio. E com vários elementos que nos remetem a séries clássicas: mortes trágicas de personagens importantes, dilemas pessoais e existenciais dos personagens centrais, rivalidades históricas, reviravoltas, drama, humor, mistérios crescentes e desfechos grandiosos, além de vários personagens inesquecíveis! A batalha final da série é uma das mais emocionantes que eu já vi, rivalizando com embates como o derradeiro contronto entre Jaspion X Macgaren. Recomendo demais pra quem nunca assistiu e posso apostar que não haverá arrependimentos!

Grande abraço!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!

Já me sinto intimado a ver o Gaim, ah ah. Depois eu comento aqui.

Se lembrarmos que a era Showa foi quase até o fim dos anos 1980, o Akibared poderia ter dito "um típico vilão dos anos 80", que ia dar na mesma.

Valeu! Abraços!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys! Realmente, a variedade dos Riders tem sido grande. Nem imagino como pode ser a próxima era. Mas existe o clima, a atmosfera de cada época e isso não se percebe no começo. O mais sensato para a Toei e a Tsuburaya será seguir em frente sem se preocupar com isso. Mas eu desconfio que já estejam fazendo planos para a mudança do imperador, vamos ver como será.

Valeu! Grande abraço!

César Filho disse...

Creio que como a mudança de era seja esperada, o impacto seja mais, digamos, organizado para as franquias Ultra e Kamen Rider. Dessa última, a Toei já havia mencionado sobre Kamen Rider Build ser a última série da era Heisei. Nas vésperas da estreia, a data da abdicação do Imperador Akihito ainda era pra janeiro de 2019 e pouco depois foi adiada para 30 de abril do mesmo ano. Pode ser que a Toei alegue alguma mudança quanto a próxima série Kamen Rider ser de fato a última da era Heisei (já que deve estrear entre setembro e outubro) ou mantenha Build como o último da era atual. Sendo assim, o próximo Kamen Rider poderia representar o início da era vindoura, mesmo que o nome ainda esteja indefinido. É um detalhe bem curioso a se aguardar.

Quanto ao Kamen Rider Gaim, eu confirmo tudo o que foi dito por aqui sobre a série. Já estava habituado com os Heisei Riders desde 2009 com Kamen Rider Decade e confesso que estranhei no começo o tal conceito das frutas. Mas quis seguir adiante e me importava mais com a trama do que com visuais e coisas do tipo. No começo Kamen Rider Gaim é meio arrastado, mas melhora do meio pro fim. Melhorar é pouco. Surpreende. Tem um detalhe que parece não fazer muito sentido no começo da série, mas o quebra-cabeça vai se encaixando com o tempo. Enfim, é uma das melhores séries da era Heisei. E digo mais: Gaim está sendo superado por Kamen Rider Build. A cada semana uma nova surpresa.

Apesar disso, o Kamen Rider W (Double) continua sendo meu favorito da atual era. Mas isso é uma outra história...

Stefano Barbosa disse...

referência a era Showa no universo mangá
https://es.wikipedia.org/wiki/Grupo_del_24
autoras nascidas no ano 24 da era Showa.

Alexandre Nagado disse...

Fala, César.

Acho que esse anúncio com tanta antecedência deve ter dado tempo para os estúdios se programarem para acompanhar a mudança de trono. Exatamente por ser mais marketing, o ano que vem será marcado pela primeira transição de trono com o imperador atual vivo. Será feito grande alarde na mídia japonesa e, na esteira disso, provavelmente Toei e Tsuburaya anunciarão seus heróis da nova era.

Vai ser interessante poder acompanhar isso. E você é mais um a elogiar muito o Build. É bom saber que tem havido um renascimento criativo nas grandes franquias do tokusatsu.

Valeu! Abração!

Alexandre Nagado disse...

Bom registro, Stefano. Valeu!