sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Samurai 7 - O mangá

"Numa época em que a humanidade havia migrado para outros planetas do Sistema Solar, aconteceu uma guerra espacial que dividiu a atmosfera do planeta Terra em duas."
- Narração de introdução do mangá.
O impulsivo Katsushiro, na capa do
vol. 1, com a arte de Mizutaka Suhou.
Em um futuro sombrio, no qual a humanidade regrediu a tempos quase medievais, sobreviver é quase uma questão de sorte. Existem vários tipos de armamentos pesados, como os temíveis Benigumo ou os Raiden. No tempo da guerra, havia uma categoria de espadachins que empunhavam as poderosas espadas chamadas de Kataná Antitanque. Temidos e respeitados, eram chamados de "samurais", evocando o espírito guerreiro de eras remotas. 

Sem emprego depois da guerra, soldados cujas mentes foram transferidas para máquinas de guerra, saqueiam e exterminam vilas inteiras. Esses bandos passaram a ser temidos como os Nobuseri, que sobrevivem saqueando vilas indefesas, roubando comida e sequestrando mulheres e crianças. Já os samurais passaram a vagar sem rumo, oferecendo seus serviços a quem pudesse pagar. 


O ciborgue Kikuchiyo, o equivalente no mangá
ao personagem de Toshiro Mifune, no
filme clássico Os Sete Samurais.
Ao invés de paz, o fim da guerra trouxe caos e medo, com a organização social regredindo séculos. Muitas pessoas se afastam das grandes cidades e criam pequenas comunidades a fim de plantar seu próprio alimento e viver em paz. Uma dessas vilas é Kanna, mas sua tranquilidade está prestes a acabar. 

Tendo descoberto que em breve serão alvo de uma nova invasão de saqueadores, a sacerdotisa Kirara, sua irmã pequena Komachi e o aldeão Rikichi passam a procurar por samurais que possam proteger sua vila. Eles têm apenas comida a oferecer, tendo que apelar também para o senso de justiça dos guerreiros a serem recrutados.

Eles logo conhecem um jovem destemido e um tanto atrapalhado chamado Katsushiro. O rapaz, querendo fugir ao destino traçado por sua família, sai sem rumo em busca de aventura e pessoas para proteger e logo se oferece para ajudar Kirara. Eles então traçam um plano para reunir samurais para proteger a vila do iminente ataque. 

Capa do volume 2,
destacando o líder Kanbei.
A cabeça de um ciborgue chamado Kikuchiyo é a primeira aquisição do grupo a ser formado. Falante, convencido e até inconveniente, ele não tem papas na língua e é quase uma consciência moral das pessoas. Ao ser encaixado em um novo corpo, aí sim ele passa a ter importância nos combates.


O primeiro samurai verdadeiro a ser recrutado é o experiente e bondoso Kanbei Shimada. A eles se juntam outros quatro, de personalidades bem distintas: Gorobei Katayama, Shichirôji, Kyuzô e Heihachi Hayashida. Apesar de não serem formalmente guerreiros treinados, Katsushiro e Kikuchiyo são incluídos no grupo, formando assim os sete samurais que irão defender um vilarejo com suas próprias vidas. 

Explicado o enredo básico, vamos agora evocar a lembrança de um dos maiores clássicos do cinema japonês, no qual esse mangá é baseado. 
O pôster do filme clássico, destacando
o lendário ator Toshiro Mifune.
Os Sete Samurais (七人の侍, ou "Shichinin no Samurai"), filme de Akira Kurosawa (1910~1998) lançado em 1954, contava a história de uma vila de agricultores que, para se proteger do iminente ataque de um bando de saqueadores, contrata sete homens para protegê-los. Seis ronins (samurais sem mestre) e um vagabundo se unem para o que se torna a batalha de suas vidas. 

Essa é a trama básica, que é jogada para o mundo futurista descrito anteriormente. Os nomes dos personagens principais foram mantidos, bem como alguns comportamentos e situações, como o nobre salvamento de uma criança graças à ação de Kanbei. Vale também mencionar que o personagem do falastrão ciborgue Kikuchiyo corresponde ao papel que foi do icônico ator Toshiro MifuneCom personagens fortes e tomadas de cena que encantaram gerações inteiras, o filme ajudou a consagrar o mito Akira Kurosawa. Muito criticado em seu país por ter muitas influências estrangeiras, Kurosawa se tornou o mais reverenciado e influente diretor japonês no ocidente. 

Em Os Sete Samurais, além de dirigir, ele também assinou a história, junto com os roteiristas Shinobu Hashimoto e Hideo Oguni. O filme rendeu várias homenagens, inspirou várias obras e teve uma versão direta em faroeste, chamada Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven, 1960), além de numerosas citações na cultura pop. Nos mangás, o filme ganhou uma versão assinada pelo renomado Takao Saitou, de Golgo 13

A versão chamada de Samurai 7 [サムライセブン, ou "Samurai Seven"surgiu primeiro como uma série em animê do Studio GONZO, produzida em 2004. A produção, com 26 episódios, chegou a ser exibida no Brasil no extinto canal por assinatura Animax, em 2006.       
Samurai 7, a versão em animê que inspirou o mangá.

Essa adaptação que está sendo publicada pela JBC foi desenvolvida a partir do animê e foi publicada originalmente no Japão entre 2005 e 2007. Publicada na revista Magazine Great, da Kodansha, teve texto e arte de Mizutaka Suhou. Uma outra versão em mangá saiu na mesma época, assinada por Maiko Asano para a Furukawa Comics.

Como essa versão da Kodansha foi feita a partir de uma série de 26 episódios, os dois volumes do mangá deixaram o roteiro muito condensado, com obviamente menos desenvolvimento de personagens. O que não é de todo ruim, pois ganhou-se em agilidade nos elementos principais do roteiro, inclusive os que remetem diretamente ao filme. O mangá também tem um design de personagens bastante diferente da versão em animê, incluindo uma alteração drástica na representação do protagonista Katsushiro.


Sendo um produto voltado à demografia shonen (garotos adolescentes), vale dizer que é um mangá com roteiro bem raso em alguns aspectos, privilegiando a ação. Vários elementos da história clássica e do animê estão lá, mas com uma abordagem mais leve e bem-humorada. 

Associar esse mangá com o nome de Akira Kurosawa chega a ser pretensioso, pois está longe de ser uma obra de arte. Mas, considerando que isso só vai importar a quem conhece a obra do cineasta, ter o nome dele nos créditos se torna apenas um "charme", para dar um verniz mais importante ao título. 

Deixando tudo isso de lado, sobra um típico mangá shonen, com uma produção competente e oferecendo uma boa dose de diversão. Sendo em apenas dois volumes, é um incentivo ainda maior para quem busca uma aventura ligeira e descompromissada.


Samurai 7 

Roteiro e arte: Mizutaka Suhou
História original: Akira Kurosawa 
Editora: JBC
Formato: 13,5 x 20,5 cm, com 208 páginas
Total: 2 volumes

Lançamento no Brasil: Setembro de 2017
Periodicidade: Bimestral
Preço: R$ 16,90


Classificação indicativa: 14 anos



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::: E X T R A S :::

1) Abertura do animê Samurai 7:
Canção: "Unlimited", por Nanase Aikawa
Letra: Nanase Aikawa/ Melodia: Hiroshi Shibasaki


2) Trailer do filme clássico de Akira Kurosawa: 


6 comentários:

Gustavo Reis disse...

Dois volumes acho que vou pegar, mas não sabia que era futurista. Não assisti ao anime.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Gustavo!

Curtinho assim eu vou completar também. Como eu disse, é um bom shonen de aventura, só não está à altura de um Kurosawa. É outro patamar.

E acho que a opção de fazer futurista foi interessante. Mudar a época da história era a única chance de não fazer algo muito óbvio.

Abraço!

Stefano Barbosa disse...

Eu pensei que a obra de Kurosawa seria adaptada em Gekiga !

Usys 222 disse...

Até via na Animax, mas só tenho vagas lembranças desse: a palavra "Nobuseri", o fato deles terem vindo atrás de arroz e o ciborgue Kikuchiyo. Acho que eu ficava mais como a Komachi no final de cada capítulo.

Tem outro filme que bebeu da fonte d'Os Sete Samurais que também se passa no espaço. Se chamava Mercenários das Galáxias e tinha o George Peppard e o Robert Vaughn no elenco. Era um daqueles filmes dos anos 1980 de Supercine->Sessão da Tarde.

Até tinha ouvido falar de uma versão em mangá e só agora soube por esta matéria que chegou ao Brasil. Gosto mais das traduções da JBC, então acho que vou dar uma conferida.

Alexandre Nagado disse...

Stefano, eu nem considero Samurai 7 uma adaptação, mas uma obra inspirada, derivada de Os Sete Samurais. Adaptação mesmo parece que só a que foi feita pelo Takao Saito. E, pra quem conhece o trabalho dele, é puro gekigá.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Eu nunca vi o animê, mas parece mais interessante que o mangá. Uma hora, vou querer dar uma conferida, até por que é uma série relativamente curta.

E bem lembrado citar o Mercenários das Galáxias. Eu não tenho lembranças muito claras, mas vi esse filme na época por causa do George Peppard, que também interpretava Annibal Smith, o líder do Esquadrão Classe A, que eu adorava.

Falou! Grande abraço!