terça-feira, 31 de outubro de 2017

O karê de Miyako (com tempero brasileiro)

A divertida Miyako conseguiu
o emprego dos sonhos, mas não
vai ter moleza pra ela.
Derivado do prato indiano curry, o karê é uma refeição tradicional japonesa de sabor picante e bastante apreciada. E esse é o prato favorito de Miyako, uma garota alegre e batalhadora. Apaixonada por karê, ela se sente realizada ao começar a trabalhar em um restaurante especializado no prato, o Curry King. 

Mas, se por um lado ela apenas sonha em poder comer todos os tipos de karê e na quantidade que aguentar, as coisas não são assim tão simples. Com colegas de trabalho bem exóticos e divertidos, a vida de Miyako no emprego dos sonhos será bastante corrida.
Págína inicial do primeiro capítulo.
Miyako chega com tudo no trabalho.
Muito entusiasmada e voluntariosa, Miyako-chan (como é carinhosamente chamada) aprende a encarar os desafios da vida profissional enquanto fica babando com os deliciosos pratos ao seu redor.

Produzido no estilo yon-koma (4 quadrinhos), comum em quadrinhos de humor no Japão, esse poderia ser mais um mangá com temática de culinária, entre tantos outros que existem. No entanto, há um detalhe importante nessa obra: o autor é brasileiro. 


Uma série divertida e enorme potencial.
Gustavo Reis é um carioca de 33 anos que, apaixonado por quadrinhos e cultura japonesa, resolveu criar e produzir sua própria série, que estreou em 2016 no portal de webomics Tapas

O autor busca emular com o máximo de fidelidade a atmosfera dos mangás, usando grafismos, onomatopeias e até leitura em sentido japonês, da direita para a esquerda. Isso cria, como poucas vezes foi visto, a sensação de um autêntico mangá traduzido para o português. 

Fachada do Curry King, o
sonhado local de trabalho de Miyako.
Aqui neste blog já debatemos a validade de usar o sentido oriental de leitura em obras originais em português, mas é para derrubar até essa convenção que Gustavo fez sua série dessa forma. Este que vos escreve, inclusive, já se pronunciou contra essa opção estética no passado, mas acima de tudo, deve-se reconhecer a qualidade genuína de um trabalho.

Sobre isso, eis uma declaração do autor, enviada por e-mail: 
"Para mim, ler mangá não é apenas ler gibi, tem toda uma experiência de leitura envolvida, que vai além de olhos grandes, narrativa, onomatopéia, etc. são várias coisas envolvidas ao mesmo tempo (assim como nos comics, bande dessinée, etc.). E, de alguma forma, não andava me agradando as várias regras que foram criadas de como deve ser feito o mangá brasileiro. De certa forma, foi uma espécie de manifesto de liberdade artística. Por outro lado, não acredito em uma forma "certa" de se fazer mangá. Foi uma opção bastante pessoal." 
Isto não é lá muito profissional, mas Miyako não resiste!

Além disso, é inegável que ao criar em sentido de leitura oriental, isso vai facilitar sua versão para o japonês futuramente. E não é impossível sonhar em uma abertura para o mercado nipônico. A leitura dessa forma também torna a obra mais fluida para leitores habituados a ler somente mangá. Contra isso, não há argumentos e o autor merece o reconhecimento e apoio pelo talento, esforço e ousadia. Por enquanto, além da versão em português, há também em inglês.

O trabalho é leve e despretensioso, com uma leitura rápida e agradável. Tem grande potencial para gerar uma versão impressa e até ser exportado, mas para isso precisa aumentar cada vez mais sua base de leitores. Ainda vamos ouvir falar mais de Miyako-chan no futuro. 

LEIA AQUI:

::: MIYAKO-CHAN NO KARÊ :::
Todo domingo, um episódio novo.

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::: E X T R A S :::

1) Estudos de personagens: (Cortesia do autor)



2) Eis um típico e delicioso karê. Receita no site Coisas do Japão

10 comentários:

Usys 222 disse...

Senti que fui chamado!

Karê é magnífico! Conheço uma receita muito boa com frango, espinafre e creme de leite. E outra, também com frango, com canela em pó, que dá um toque exótico mas estranhamente viciante. E tem outra, mais rápida e fácil de fazer, com carne moída e queijo. O tempero básico, o curry também é bom para fazer Curry Satê (espetinho indonésio), Tandoori Chicken (frango indiano) e...

Ah, tá. A matéria é sobre quadrinhos. Mas ainda assim é fascinante, visto que se trata de um brasileiro. Um grande diferencial é que ele optou por falar de um ambiente de trabalho, com temas cotidianos ao invés de fazer algo mais pretensioso como aventura ou fantasia. De fato, essa é uma tendência dos quadrinhos japoneses atuais, de mostrar essas situações do dia-a-dia, que parecem banais, mas falam ao coração de quem trabalha ou estuda. E o resultado ficou bom. Dá mesmo a impressão de ser feito por um japonês.

O formato de Webcomic é muito interessante e dá para encontrar coisas legais que provavelmente nunca veriam a luz do dia em publicações de grandes editoras. Existem outros sites, como a Comic Ruelle, que funcionam mais ou menos como as editoras físicas, só que na Web, e se mantém com anúncios. Não sei dizer qual é o critério, mas algumas obras são publicadas em mídia física. Um que encontrei foi Super Heroine Boy, que ficou tão engraçado que acabei comprando a versão em papel. Essa pode ser mais uma possibilidade para desenhistas iniciantes.

Essa receita básica é legal, mas deixar por uma hora?! Mesmo assim é uma boa dica para deixar a carne mais macia. É gostoso, só que limpar a panela e os utensílios dá um trabalho...

Gustavo reis disse...

Só tenho a agradecer ao Alexandre Nagado pelo apoio!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Kare é sensacional, mas infelizmente não achei onde comer aqui na minha cidade. Esse mangá fez aumentar minha vontade, ah ah!

Antigamente o autor independente tinha que fazer seus fanzines, imprimir em xerox e sair vendendo um a um. Hoje a tecnologia permite a um autor independente alcançar público em qualquer lugar. Realmente, tem muitas webcomics interessantes. Mas eu torço para que o trabalho do Gustavo ainda ganhe versão impressa.

Valeu! Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Não precisa agradecer, Gustavo. Poder divulgar um trabalho como o seu me deixa bastante satisfeito.

Boa sorte e sucesso!
Abraço!

Guthem disse...

Conhec o Gustavo em um grupo de >Mangakás< do fb. Achei curioso, 4koma sobre curry feito por um BR.
Peguei pra ver sobre.
E aplaudi com:
- a testa batendo no teclado;
- mãos;
- pés.

Sério.

O Brasil está mostrando força nos mangás - acompanhem o site SILENT MANGA AUDITION... -, e o trabalho do Guatavo Reis vem, além de impressionar com qualidade, causar um choque cultural duplo: é mangá, tá, beleza (não sabia que tu, Nagado, recomenda o BR fazer mangá em sentido ocidental), mas ALÉM disso é sobre CULINÁRIA!
Não é sobre o órfão que vira lutador, ou sobre o carinha que vira guerreiro.
É algo NOVO de verdade.

Gustavo tem um talento que, inveja à parte, espero poder me colocar no mesmo patamar algum dia (também,sou desenhista).

Leo Feitoza disse...

Gostei da matéria! Bem se vê como o Gustavo Reis é um dos autores nacionais que atualmente conseguem utilizar a narrativa dos mangás sem nada a dever a tantos autores nipônicos.

P.S.: não está relacionado ao tema, mas é sempre gratificante ler "pretensioso" grafado corretamente, coisa rara na internet. É impressionante como tantos usuários e páginas insistem em colocar o "c" onde não se deve.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Guthem.

Realmente, o trabalho dos Gustavo tem um frescor e uma empolgação contagiante, pois é feito com muita dedicação. E esse tema e essa abordagem vão na mesma direção que os bons mangás de cotidiano. Iniciativas assim devem ser valorizadas.

E eu sempre defendi que obras escritas originalmente escritas em português devem seguir o sentido oriental. No entanto, mudei de opinião, principalmente pelo fato de que isso facilita a apresentação ao Japão. O Brasil não comporta um mercado para sustentar um autor assim, mas quando ele conseguir romper a barreira do idioma estará em igualdade de condições com autores locais, falando para um mercado que, se o aceitar, permitirá a ele gerar renda. Eu prezo muito a necessidade da profissionalização e isso passa pela recompensa financeira. E temos que ir atrás de onde está o dinheiro.

Obrigado pelo registro e lhe desejo muito boa sorte em sua caminhada com o desenho. Quero no futuro comentar algum trabalho seu por aqui.

E espero que apareça mais vezes para comentar por aqui.

Valeu! Abraços!

Alexandre Nagado disse...

Oi, Leo, bom vê-lo por aqui de novo!

O Gustavo faz parte de uma geração que busca o mangá "de raiz", mais puro, sem influências externas. Minha geração, até por hábito de leitura, buscava incluir elementos ocidentais, algo mais miscigenado. E impressiona bem ver um autor conseguir emular o estilo e a linguagem de forma competente e com desenvoltura.

Ah ah, eu tento escrever do jeito certo. Mas tem cada erro cabeludo que vejo na mídia sendo perpetrado como o correto, que até desanima...

Grande abraço!

Gustavo reis disse...

Lendo os comentários fico muito feliz por gostarem do mangá e pelo apoio. No Brasil a gente mata um leão rodo dia pra continuar produzindo. Como a vida é corrida e mangá é uma paixão, sempre procurei fazer algo que me agrada, mas sei que também preciso atender a demanda dos leitores.
A proposta da Miyako-chan sempre foi pra ser algo pra todo mundo ler e ter um momento agradável. Sem violência ou temas complexos, não por ser contra esses temas, mas porque depois que me tornei adulto passei a sentir falta desses momentos de frescor e despretensiosos. Hoje em dia ou tudo é muito mega, saga ou reflexivo e profundo. Só queria fazer um mangá que a pessoa pudesse ler e acompanhar (ou até pular alguns episódios) e se divertir nesse momento, fechar o navegador (ou aplicativo/ou o quadrinho físico que um dia, Deus quiser vai sair) e continuar fazendo suas coisas, ir dormir, sei lá. A ideia sempre foi tentar trazer um momento de alegria pras pessoas.
Eu tenho um lema que não se aplica só aos mangás: "Não leve os mangás tão a sério". Esse é a frase que sempre carrego comigo na hora de produzir meus trabalhos. A vida já é muito dura. Prefiro deixar reflexões e problemas pra vida real. Quando adentro o mundo dos mangás é para fugir e me divertir.

Alexandre Nagado disse...

Gustavo, eu penso como você. A vida (pra quem é adulto e dá um duro danado pra sobreviver) já é dura o bastante pra buscar obras que deixem deprimido quem lê ou assiste.

Por isso eu tive uma real simpatia por seu trabalho.

E sua frase lembrou uma do jornalista esportivo Milton Neves: "Futebol é a coisa mais importante da vida, dentre as menos importantes." E é assim que eu encaro HQ e cultura pop.

Sucesso pra você!!
Grande abraço!