terça-feira, 10 de outubro de 2017

Baldios - Os Guerreiros do Espaço e os Real Robots

Um dos primeiros animês de robôs a tratar com seriedade os efeitos de uma guerra.
Baldios, um dos representantes da primeira leva de Real Robots,
uma subdivisão dos animês de Super Robots.
Em um mundo futurista, o jovem Marin Reigan é um habitante de um planeta chamado de S-1, cuja atmosfera está contaminada pela radioatividade. O planeta sofre um golpe militar e seu novo governante, Gattler, declara guerra contra a Terra, planejando dizimar a humanidade e assim conseguir um novo lar para seu povo. Outrora um paraíso, S-1 estava morrendo devido à destruição de seu ecossistema e o pai de Marin liderava um grupo que tentaria salvar o planeta. Porém, todos acabam mortos pelos militares revolucionários  antes de colocar seu plano de cura do planeta em prática. 

Marin jura vingança contra Aphrodia, a oficial responsável pelo ataque que matou seu pai. Ela, por sua vez, também quer vingança contra Marin, que matou seu irmão durante a invasão ao laboratório. Antes, os dois haviam se visto e se apaixonado à primeira vista, para somente depois se verem como inimigos mortais. Mas o conflito de sentimentos entre eles é atropelado pela violenta guerra entre seus povos. Marin foge para a Terra com sua espaçonave e se junta às forças de resistência. 
Aphrodia e Marin: Um amor condenado pela guerra. 
Lutando do lado dos humanos, Marin pilota o robô gigante Baldios, formado por sua nave em combinação com dois veículos da Terra controlados pelos pilotos Raita Hokuto e Jack OliverA luta sangrenta entre os povos chega ao nível máximo e um ato desesperado coloca tudo a perder, com uma devastação nuclear. 

Em uma saga cheia de violência e pessimismo, os heróis de Baldios se tornam figuras trágicas, meros soldados em uma batalha sem vencedores. 


O animê foi produzido pela Ashi Production em 1980 e foi planejado para 39 episódios, sendo que 34 foram produzidos, mas apenas 31 foram exibidos, devido ao cancelamento da série no Japão. Na Itália, entretanto, todos os 34 capítulos passaram na TV. Sem ter conseguido movimentar grande audiência, Baldios estaria fadado ao esquecimento. 


Tema de abertura: "Ashita ni ikiro" ("Live in Tomorrow") 
Composto por Kougo Hotomi (letra) e Kentaro Haneda (melodia e arranjo)
Cantor: Kouichi Ise

BALDIOS - O FILME

Baldios ganhou um resumo em longa-metragem para cinema em dezembro de 1981, com o aproveitamento de trechos que estavam inéditos na TV japonesa. No longa, o robô Baldios aparece pouco e as atenções se concentram mais na trágica história de amor de Marin e Aphrodia e nos terríveis efeitos da guerra. 

Várias tramas paralelas foram eliminadas e muitas coisas acontecem aos saltos, tirando muito da progressão de acontecimentos da série. Esse filme foi lançado em alguns países, inclusive no Brasil, em uma época de poucas opções para fãs de desenhos animados japoneses. 

A distribuição mundial do longa foi feita pela Toei Central Film, o que fez muitos acreditarem que era um título da Toei Animation, o que é incorreto. Já o estúdio Ashi Production mudou seu nome para Production Reed em 2007 e é responsável por títulos como Fairy Tail (2009), Supernatural: The Animation (2011) e Yuri!!! On Ice (2016).
Baldios - O robô que dá nome à série é mero
figurante na versão para cinema.
Baldios - Os Guerreiros do Espaço foi dublado e distribuído no metade dos anos 1980 pela Brazil Home Video - atual Sato Company, que trouxe na mesma época Macross - A Batalha Final e Capitão Harlock e a Nave Arcadia. Era a época em que os aparelhos de videocassete ficavam mais acessíveis e as fitas VHS enchiam as prateleiras das locadoras. Depois, já na segunda metade dos anos 1990, Baldios foi exibido como minissérie em cinco partes na TV Manchete, depois do estouro dos Cavaleiros do Zodíaco

A produção pode ser enquadrada em uma categoria específica de animê, a dos mechas (leia "mecas"), que dá ênfase no uso de robôs gigantes, também chamados de Super Robots. Baldios também se enquadra em uma subdivisão dos Super Robots, chamada de Real Robot, gênero que surgiu com Mobile Suit Gundam, sucesso da produtora Sunrise lançado em 1979. 

REAL ROBOTS: Máquinas de Guerra!

Precursor de uma franquia gigantesca que está sempre em constante renovação, Gundam inaugurou uma nova era para os robôs gigantes japoneses

Diferente dos heróicos sentinelas metálicos como Robô GiganteMazinger Z ou o Pirata do Espaço, Gundam era uma saga espacial onde os mechas eram tratados como letais armas de guerra. A grande mudança de abordagem é que a luta do bem contra o mal não ficava muito clara, sendo muitas vezes uma luta pela sobrevivência. O realismo ficava por conta das consequências das batalhas, além dos maquinários serem mais planejados para terem alguma verossimilhança. No início, ainda havia muita influência visual de robôs mais fantasiosos, o que foi pouco a pouco dando lugar a estruturas mais complexas e projetos altamente detalhados. 

Originalmente, os Real Robots eram uma alternativa aos Super Robots, onde as armas e transformações dos robôs pareciam algo mágico. Os Real Robots,  por sua vez, tinham suas características e limitações ditadas por parâmetros mais realistas. 

Idealizado por Yoshiyuki Tomino e com design mecânico de Kunio Okawara, Gundam mostrava tramas políticas, traições, reviravoltas e mortes de civis em uma escala que normalmente é ignorada ou reduzida em produções infanto-juvenis. 

As chamadas "casualidades de guerra" foram para a linha de frente e ganharam relevância na trama. Várias séries foram criadas nesse estilo, principalmente pela Sunrise, com imagens violentas, exatamente para escancarar a crueldade da guerra. Não que isso fosse uma característica exclusiva ou tenha começado com os Real Robots, pois há várias obras de ficção e fantasia anteriores com abordagens bem cruas sobre a guerra e as perdas civis. Com os Real Robots, entretanto, houve o encontro disso com uma abordagem gradativamente mais realista no maquinário também e na inclusão de elementos de política de bastidores. 
Os Real Robots não são defensores
da humanidade ou da justiça. São, antes
de tudo, poderosas máquinas de guerra.
Sendo ao mesmo tempo uma exaltação do militarismo e um manifesto contra a estupidez da guerra, os Real Robots são parte fundamental da cultura otaku no Japão, mas não têm a mesma força no ocidente. 

O auge da violência gráfica desse gênero talvez tenha sido o animê Space Runaway Ideon (1980), que mostrou várias atrocidades, como crianças sendo fuziladas com suas mães e até mesmo a decapitação explícita de uma menina que era personagem fixa da série. Mas outras produções do gênero não ficaram muito atrás, lembrando que Ideon não fora rotulado como obra para adultos (onde não há limites para a violência gráfica), tendo sido divulgado em revistas infantis e gerado brinquedos. Ideon, assim como Baldios, teve sua série de TV cancelada e foi concluído no cinema. 
Space Runaway Ideon: Tragédia, violência e pessimismo
ainda maior que em Baldios espantaram o público.
Uma das explicações para essa violência nos Real Robots é que o Japão, diferente dos EUA, conheceu fortemente os efeitos da guerra em seu próprio território, com populações civis sendo dizimadas. Por isso, a crueza tão presente em narrativas japonesa, mesmo no campo da cultura pop e do entretenimento infanto-juvenil. O contato com o ocidente tem feito os produtores japoneses abrandarem a violência, a fim de encontrar menos barreiras culturais para seus produtos. Ainda assim, essa violência está sempre alguns graus acima do que é normalmente feito no ocidente.

Depois que o gênero mais "realista" ficou bem firmado, o termo Super Robots foi aos poucos englobando também os Real Robots. Prova disso são os games Super Robot Taisen e os eventos Super Robots Spirits, que reuniram cantores de todos os estilos de animês de robôs em shows memoráveis. No meio de todo esse mercado, Baldios tornou-se uma peça meio desconhecida, sendo mais lembrado no ocidente, graças ao longa que despertou a curiosidade de gerações mais antigas de fãs na época da explosão do videocassete.

A animação de Baldios é datada, bem como sua narrativa visual. E apesar da trama mostrar a crueza e os efeitos de uma guerra total, o próprio robô parecia ter mais "super-poderes" do que propriamente armamento pesado. Ainda assim, é uma obra interessante de se conhecer, fruto de uma época em que uma instituição da ficção japonesa - os robôs gigantes, começavam a se aventurar pelo sombrio terreno da guerra realista e suas consequências. 

::: FICHA TÉCNICA :::

Baldios - Os Guerreiros do Espaço 

TV:
Título original: Uchuu Senshi Barudios (宇宙戦士 バルディオス)
Estreia no Japão: 30/06/1980 (TV Tokyo)

Criação e roteiro: Akiyoshi Sakai
Trilha sonora: Kentarô Haneda
Design mecânico: Hajime Kamegaki
Direção: Shuuichi Hirokawa
Total: 31 episódios (versão oficial japonesa)
Realização: Ashi Production (Production Reed

Cinema:
Título original: Gekijôban (Versão cinema) - Uchuu Senshi Barudios 

Estreia no Japão: 19/12/1981
Duração: 118 minutos
Ilustração publicada na edição 148
da extinta revista B-Club (1998).

8 comentários:

Usys 222 disse...

Conheci Baldios em Super Robot Taisen Z. Lá dava para ver como Marin era tratado com desconfiança e até frieza por seus "colegas de equipe", Raita e Oliver, por ele ter vindo de S-1. E também é mostrada a inesperada ligação entre S-1 e a Terra.

Mas não sabia que tinha sido lançado no Brasil. Nessa época saiu tanta coisa que mal dava para acompanhar. Acho que fiquei empolgado demais com Voltes V e nem notei. Uma pena.

Yoshiyuki Tomino já fazia carnificinas e falava dos horrores da guerra desde antes de Gundam, como no desenho de Super Robots chamado Zambot 3. O personagem principal e sua família eram vistos com desconfiança e ódio pelo povo da Terra por serem alienígenas e o robô só podia ser pilotado por crianças de 12 a 15 anos, que tiveram que ser condicionadas enquanto dormiam. A coisa piorou quando o vilão passou a raptar terráqueos de forma aleatória, implantando bombas em seus corpos e devolvendo para que elas explodissem, matando todos ao redor. E entre elas estavam pessoas bem próximas ao protagonista...

De fato, na época havia bastante gente que viveu o período da guerra produzindo desenhos e seriados e por isso conseguia falar dela. Um exemplo seria Tohru Hirayama, que viu esses horrores bem de perto. As obras de agora perderam um pouco essa violência, acredito que não só para se adequar ao mercado ocidental, mas também porque muitos de seus produtores já são de uma época em que a guerra era coisa do passado e os japoneses tinham mais conforto devido ao desenvolvimento econômico. É difícil representar algo que não foi vivido.

No mais, foi bom ter trazido o Baldios à tona. Eu gostava de usar em Super Robot Taisen e a história era bem interessante. Penoso foi saber que a série de TV terminou em aberto, de uma forma ruim, mas conseguiram fazer uma conclusão no jogo.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Usys!

Quando meus pais compraram um videocassete pela primeira vez, era um Goldstar e eu fiquei empolgadíssimo. Em uma revista de vídeo, havia tomado conhecimento de Baldios e Capitão Harlock. Aluguei os dois e vi primeiro o Harlock, pela semelhança com o Yamato. Achei sensacional!

Já o Baldios deu sentimentos confusos. A capa não mostrava o robô, apenas Marin e Aphrodia. Quando o robô apareceu, fiquei empolgado, pois gostava muito do Pirata do Espaço. Mas ele aparecia pouco e a história é muito depressiva. Achei interessante, mas só isso. Não estava no momento de entender. Depois, vi Gundam, o original, o 0083, o F91... Vi o suficiente para concluir que não sou fã dos Real Robots. Li sobre eles como parte de meu esforço em ter uma boa visão sobre a cultura pop japonesa, mas prefiro coisas mais leves e fantasiosas.

Não sou do tipo que fica analisando o calibre da arma, quantos tiros por minuto, qual a autonomia de voo de um Gundam, o tipo de blindagem, etc... E muitas vezes, Tomino me soa pretensioso, acho que esse é o maior problema, mas é questão de gosto pessoal, por isso não mencionei no texto. Mas eu vejo essa contradição entre a exaltação do militarismo e o lado mais panfletário sobre a guerra, o que em Ideon ganhou contornos niilistas.

Obrigado pela participação! Grande abraço!!

Stefano Barbosa disse...

Baldios, o nome parece baldio!! (terreno)
Bom, esses mechas se parecem com Mazinger e Gundam.

Bruno Seidel disse...

Realmente, aos olhos ocidentais, causa muita estranheza ver um anime de "robôs" (algo supostamente infantil e feito pra vender brinquedos) carregar uma dose tão intensa de drama, complexidade e violência. Eu mesmo, que me considero um grande entusiasta da cultura pop japonesa, tenho minhas restrições com esse tipo de obra e também prefiro produções mais leves, fantasiosas e "otimistas".

Nunca cheguei a assistir o mencionado Space Runaway Ideon, mas gosto demais da música de abertura (uma das minhas preferidas). Aliás, como já foi discutido no post sobre Super Robot Taisen V, esse gênero de super robôs (e suas respectivas ramificações) possui uma adoração toda especial na terra do Sol Nascente. Bem diferente do Brasil. Eu sequer sabia, por exemplo, que o filme de Baldios havia sido exibido por essas bandas (deve ter feito muito pouco sucesso, pois nunca vi ninguém comentar).

E essa comparação que o Usys fez, citando o Tohru Hirayama e sua relação pessoal com a guerra, é um bom exemplo de como o contexto social interfere diretamente numa obra e até numa "geração" de autores. Não há dúvidas de que a ocidentalização e uma geração de japoneses que nasceu depois da metade do Século XX vive em num contexto bem diferente de seus antepassados e que isso tende a dar outra atmosfera às obras que estamos vendo hoje (e as que ainda estamos por ver).

Particularmente, mantenho minhas restrições com obras de ficção que escancaram esse lado "realista", dramático e trágico da guerra, pois essa é uma sensação que eu não quero nem imaginar como seria na vida real.

Alexandre Nagado disse...

Oi Stefano.

Sim, Baldios ainda tinha mais influência visual de Mazinger do que Gundam, apesar da história seguir mais o estilo de Yoshiyuki Tomino.

Falou!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!

O Baldios figurou em publicidades de revistas de vídeo e até apareceu em guias de vídeos. As resenhas eram muito superficiais, e no geral ele passou meio batido. E quando passou na TV, não teve impacto. Mas ficou na lembrança e achei pertinente lembrar, mais para falar dos Real Robots, um gênero que o Brasil teve contato bem timidamente e de forma esporádica.

Valeu! Grande abraço!

Leo Feitoza disse...

Boa reportagem sobre Baldios! Ainda não cheguei a assistir, mas fui atrás de resumos quando conheci a abertura da série de tv, que tem uma das anisongs mais bonitas que eu já ouvi.

Alexandre Nagado disse...

Oi Leo! O longa não é muito difícil de achar. Mas a série deve ser melhor resolvida em termos de roteiro. No longa as coisas acontecem meio gratuitamente em vários momentos.

E a música é bacana mesmo.

Valeu! Abraço!