quinta-feira, 19 de outubro de 2017

AKB48 e seus CDs descartáveis

Uma reflexão sobre as estratégias de marketing na música pop japonesa. 
AKB48 - Uma fábrica de sucessos, não apenas
por causa de sua música. 
Nesta semana, o jornal Japan Times publicou uma notícia sobre um homem da região de Fukuoka que estava sendo acusado de descartar mais de 500 CDs do grupo pop AKB48 em local inadequado. Interrogado, o tal infrator afirmou que não sabia o que fazer com tantos singles repetidos. A compra compulsiva teve um motivo, ainda que nada nobre e esse homem não foi o único a comprar sozinho centenas de cópias repetidas. 

Uma das estratégias de marketing da empresa que gerencia o grupo é realizar periodicamente votações entre os fãs para estabelecer quais, entre as dezenas de integrantes, serão destaque na próxima canção a ser lançada. Como só é possível votar através de cupons que vêm encartados nos CDs, os fãs mais apaixonados compram várias unidades para poderem votar várias vezes em sua artista favorita. 

As idols são um fenômeno tipicamente japonês. Idolatradas como divindades de doçura e pureza, também vendem uma imagem bastante erotizada posando frequentemente de biquínis e lingeries. Falando sempre direto ao público, uma idol é a namorada idealizada de homens solitários, o grande público consumidor desse tipo de música fortemente amparada no visual. Claro que seu som atinge a todo tipo de público, mas o consumidor hardcore de grupos idol é masculino e bem mais velho que as integrantes, geralmente entre 12 e 23 anos. 

Sucesso desde 2005, trocando sempre suas integrantes
conforme elas vão envelhecendo, uma estratégia para
sempre renovar o interesse. 
Outra estratégia envolvedo o AKB48 consiste em eventos onde o fã pode ficar frente a frente com as idols, tendo, por exemplo, alguns segundos para tirar uma foto ou apenas um cumprimento. Só um aperto de mãos, já que lá não existe o hábito de cumprimentar mulheres com um beijo no rosto e abraços só acontecem entre amigos íntimos. Daí, os mais afoitos compram vários CDs para somarem mais cupons e mais tempo na presença das meninas. Essas cantoras possuem muitos fãs adolescentes, mas os mais radicais são homens adultos, que as tomam como musas e namoradas virtuais. 

Vários casos foram registrados de fãs atrevidos que ficam alisando as mãos das meninas, dizem coisas obscenas e ficam tentando um contato mais ousado. E muitas são menores. Com essas estratégias, muitos fanáticos pelas meninas acabam comprando dezenas - às vezes centenas - de cópias de um mesmo CD, apenas para tirar o cupom e jogar fora os repetidos. 

Com tudo isso, as vendas alcançam patamares irreais e o AKB48 já acumula mais 51 milhões de gravações vendidas, entre singles e álbuns. O mesmo vale para os grupos ligados, como NMB48, Nogizaka46, SKE48 e outros. É algo completamente irreal, não vende por causa da música, mas pela exploração dessas meninas altamente sexualizadas que, no entanto, devem fazer voto de celibato para serem aceitas. São comprometidas a vender a imagem de virgens eternamente à espera de um fã sonhador. 
Para não cansar o público, as integrantes se dividem em
sub-grupos, o que permite explorar mais os talentos individuais.
Esses grupos, que tanto sucesso fazem entre muitos homens japoneses, apelam ao lado colecionador do fã hardcore e otaku: o colecionismo. Assim como fãs de Pokémon ou Kamen Rider sabem de cor o nome de cada personagem e seus poderes, os fãs de idols sabem o nome de suas musas e decoram itens como data de nascimento, signo, altura, peso, medidas (busto, cintura, etc...), cor favorita, hobby e outras futilidades. E como há centenas delas estampando uma infinidade de produtos, a mente dessas pessoas está sempre ocupada em alimentar o vício. 

Mas, verdade seja dita, a música do AKB48 não merece ser classificada como algo ruim. Seus singles e álbuns são bem produzidos, com músicos competentes e compositores de ponta, com melodias agradáveis. É um pop muito bem feito, com algumas canções inspiradas. 

Se fosse apenas apelo visual e estratégia de marketing, o projeto certamente não iria durar muito e o AKB48 está na estrada desde 2005, sempre renovando seu cast de garotas aspirantes a modelo, cantora e atriz. Há artistas talentosas no meio daquele monte de sorrisos e charme ensaiados exaustivamente. Mas o sucesso impressionante em termos de vendas, isso sim, é algo fabricado e condenável do ponto de vista do reconhecimento por mérito artístico. Muitos artistas com trabalhos autorais e grande musicalidade acabam ficando para trás, atropelados por essa verdadeira indústria desenfreada de celebridades. 
"Apaixone-se por mim!" é o apelo de toda idol.
Criação do letrista e empresário Yasushi Akimoto, o AKB48 representa o ápice do pensamento marketeiro que impera na música japonesa. O mercado fonográfico japonês é o segundo maior do mundo, só perdendo para os EUA. E lá a pirataria é combatida ferozmente, sendo que é a venda de CDs que ainda direciona o mercado local. 

Mas, estratégias para turbinar as vendas de CDs com jogadas comerciais não são recursos apenas de cantoras idol. Um recurso comum é lançar singles em diferentes versões. A música principal é a mesma, mas as faixas complementares diferem entre si. Podem ser versões karaokê, remixagens, faixas ao vIvo, versões alternativas e o que mais puder ser imaginado além de, obviamente, capas diferentes para cada versão. O AKB48 usa as estratégias de variantes do mesmo produto, mas acrescenta ainda os cupons promocionais, o que eleva as vendas à estratosfera. 

Os fãs mais hardcore acabam comparando mais de uma versão e é isso o que tem aumentado as vendas de muitos artistas. Ainda assim, isso envolve variações de música, o que é bem diferente da estratégia de cupons que leva um fã comprar várias cópias repetidas de um mesmo produto. 

É um crescimento forçado, que pode desmoronar em um cenário de crise econômica ou mesmo pelo cansaço do público devido à superexposição. A estratégia de mudança constante de integrantes pode servir para renovar continuamente o interesse. Mas a padronização dessas garotas é tanta, que elas próprias acabam se tornando produtos descartáveis. 

Saiba mais:

Sobre o fenômeno AKB48 e sua presença na cultura pop japonesa

Idolatria e perseguição no mundo idol


::: E X T R A S :::

1) "#Sukinandá" ("#Gosto muito") - Lançado em 30/08/2017, vendeu mais de um milhão de cópias só no primeiro dia. Filmado na belíssima região de Okinawa, foi o 49º single da banda. Tem uma versão legendada aqui. O clima soft lesbian, tratado de modo bem ingênuo e no limite entre a amizade e o romance, é bastante comum em grupos idol, atiçando a imaginação dos fãs marmanjos.




2) "Give up wa shinai" ("Não vou desistir!") - Música complementar de uma das variações do single de "#Sukinandá".


3) "Give me Five" - Single de 2012, teve como peculiaridade o fato de que as meninas realmente tocaram os instrumentos na gravação. A maioria teve que receber treinamento para conseguirem fazer suas partes. Foi o 27º single da banda e reuniu também participantes de outros grupos, formando a subdivisão Baby Blossom.

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6 comentários:

Bruno Seidel disse...

Fazia tempo que eu não ouvia falar do grupo AKB48. Até não me surpreenderia se soubesse que foi extinto. Mas parece que continuam firmes e fazendo bastante sucesso, pelos motivos bem esclarecidos no post.

Aos olhos ocidentais, esse envolvimento dos fãs/consumidores que sustentam esse mercado pode ser encarado como algo doentil, perverso ou asqueroso. E eu até acho que é digno de um estudo antropológico.

Lembro que, há alguns anos, o fenômeno AKB48 chegou a transcender a mídia japonesa. Tinha gente totalmente alheia a esse cenário perguntando pra mim "Bruno, você já viu esse fenômeno que tá tomando conta do Japão? Das menininhas bonitinhas que parecem umas bonecas!"
Na mesma época por sinal, estreou no Japão o filme "Ultraman Saga" (terceiro filme do Ultraman Zero), que tinha uma "participação especial" de algumas integrantes da AKB48. Pra minha surpresa, quando vi o filme, essa participação foi bem mais do que uma ponta e sim um elemento central da trama, o que me deixou um pouco decepcionado e bastante assustado.

Ainda devo dizer que essa história de celibato e sexualização de menores de idade é o que mais me incomoda, sem falar no machismo velado que existe por trás disso.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!

O AKB48 e as bandas irmãs se tornaram algo meio onipresente na mídia japonesa. Mas sabe que no Ultraman Saga eu achei que elas atuaram direitinho? Poderia ter sido um desastre e não foi. O imperdoável foi terem deixado o Takeshi Tsuruno ficar reduzido a uma participação especial.

Bom, eu sempre gosto de apontar os problemas da indústria idol e tento separar isso da música. É uma indústria que se apoia em coisas não muito saudáveis, mas ninguém pode falar muito disso. Enfim, minha parte enquanto pesquisador independente, estou fazendo.

Valeu! Abraço!

Usys 222 disse...

Um fenômeno semelhante aconteceu nos anos 1970. Foi com os cards colecionáveis de Kamen Rider, que vinham nos Rider Snacks. As crianças ficavam com os cartões e jogavam fora os salgadinhos. Tanto que até houve uma vez que encontraram um bueiro entupido desses salgadinhos, na embalagem e sem abrir. Nisso, até o próprio Kamen Rider teve que ir à televisão e dizer às crianças para não fazer isso. É só que no caso do AKB48 é improvável que uma das meninas ou o Yasushi Akimoto vá fazer algo parecido nos shows ou nos programas musicais.

Do AKB48 realmente surgem grandes estrelas e existem aquelas que acabam no esquecimento. O trabalho em Ultraman Saga foi muito melhor do que eu esperava e a equipe soube guiar bem as meninas nesse sentido. Mayu Watanabe se mostrou boa dubladora em um episódio de Maho Girls Precure! e até cantou bem a música-tema do especial de cinema. E Yasushi Akimoto é um letrista competente, isso não se pode negar.

Essa... venda casada(?) com tíquetes de apertar a mão é um método bem desleal de se inflar vendas. Um aviso de "Um tíquete por pessoa" seria mais ético, mas por que fazer isso e diminuir as vendas e o ranking na parada de sucessos, certo? Interessante é que em Doki Doki! Precure uma das personagens é idol e existe uma crítica velada a essa prática. Não sei se vai aparecer em Glitter Force Doki Doki, já que isso não é comum neste lado do mundo.

Mas esse tipo de comercialização se estende a outras mídias. Exemplos seriam mangás que vem com um brinde especial diferente dependendo da loja onde se compra. O mesmo acontece com figuras, jogos, DVDs/Blu-Rays e por aí vai. Isso acontece até mesmo com ingressos para shows e cinemas, com brindes especiais para cada local.

Não sei dizer se Yasushi Akimoto foi o iniciador dessa prática, mas esse é um método bem eficaz de conseguir lucros. Embora, mais uma vez, a ética seja questionável.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Usys!

Sim, há muitos exemplos na indústria da cultura pop de modo geral. Nos EUA, os quadrinhos de super-heróis sofreram um boom enorme nos anos 1990. Com a ascensão de "desenhistas popstar" como Jim Lee, Todd McFarlane e outros, capas variantes ou com algum efeito especial viraram moda. Como a fase era boa na economia americana, muitos fãs compravam várias edições. E lá há um mercado de colecionadores de revistar raras. As primeiras edições de clássicos custam uma nota. Daí, lançaram uma nova série de X-Men que vendeu milhões, porque todo mundo queria comprar pra investimento no futuro. Mas como um gibi que vendeu milhões será valorizado por ser raro? As pessoas começaram a jogar fora pilha e pilhas de revistas repetidas.

Coisas assim criam uma bolha de prosperidade. Mas, como toda bolha, uma hora ela estoura. Por isso, mesmo que ache várias músicas do AKB48 bem legais, acho um disparate ver elas com vendas tão altas. Enfim, coisas do mercado.

Obrigado pela participação! Grande abraço!

Lukan Peixe disse...

Ótimo texto!

A única coisa que me deixa cabreiro neste meio é a questão do emaculação das meninas, inclusive exigindo que as mesmas sejam virgens e não tenham namorado MAS ninguém esta lá de forma obrigada, apesar de provavelmente ter aquela alimentação constantemente na cabeça das garotas, aquele sonho dourado de ser pop star.

Por um lado vejo apenas como o bom e velho capitalismo funcionando, por outro lado, vejo este conflitos ético, incluindo as bolhas dos CD's.

É realmente um assunto que merece um estudo mais profundo.

Obs.: Eu acho legal o lance dos Singles com capas/músicas diferente. Dá sensação de escolha, principalmente se considerar o item físico apenas como um item de colecionismo. Pelo menos no Visual Kei, é esta a sensação que tenho.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Lukan Peixe!

Os singles variantes pelo menos trazem músicas diferentes, arranjos diferentes, além das capas. Envolve música e acho que é interessante. Quando o Alfee gravou o tema de encerramento de um longa do Yamato, saiu uma versão com o tema de abertura em versão orquestrada e outro em versão rock. Se eu pudesse, comprava as duas versões. Então eu entendo esse lado do colecionismo. Mas isso do cara comprar o mesmo CD só pra acumular pontos ou votos é algo que realmente ultrapassa o que eu considero uma estratégia ética, mas é só minha opinião.

Coisas assim são comuns na música japonesa, mas o Akimoto (o empresário) extrapola muito.

Valeu, espero que encontre mais assuntos do seu interesse por aqui. Apareça mais nos comentários!

Abraço!!