sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Histórias fechadas x Grandes sagas: Ascensão e queda do formato omnibus

Uma análise sobre os diferentes formatos narrativos em que séries japonesas são apresentadas.
Cavaleiros do Zodíaco: Um épico dividido em
grandes arcos de história. Uma narrativa consagrada.
Quem acompanha séries de TV japonesas está acostumado ao formato de histórias longas, com um começo e um final. Animês seriados são como novelas e isso explica parte de seu sucesso no Brasil, onde o povo é acostumado a esse tipo de narrativa. 

Entre os fãs, a paixão por grandes arcos de história é tão grande que, quando aparece algum episódio em que a trama não avança, ele logo é taxado de "filler", ou uma mera encheção de linguiça. Mas nem sempre foi assim. 

Até a década de 1970, o formato que predominava na TV era o "omnibus", que se refere a uma série composta por histórias fechadas, geralmente independentes entre si. Isso após o episódio inicial, que apresenta personagens e situações principais. O termo omnibus vem do latim e significa literalmente "para todos", sendo usado para definir veículos de transporte público. No campo do entretenimento, o termo pode designar um filme que seja uma compilação de curtas, mas há um outro sentido, mais utilizado na cultura pop. 

Apesar de muitas variantes aceitas em diferentes contextos, no Japão o termo omnibus é usado no Japão para definir uma série composta de episódios auto-contidos, com começo, meio e fim e que podem ser vistos por qualquer pessoa, sem a necessidade de ver a série inteira.
Speed Racer: Um clássico no formato omnibus.
No início da produção de séries de TV, seja em animê ou live-action, o referido formato reinava absoluto, sendo usado em praticamente todas as produções da década de 1960 e na maioria das obras na década seguinte. Speed Racer (1967), o primeiro grande sucesso internacional da animação japonesa, era totalmente desenvolvido dentro desse formato de roteiro. A existência de histórias em duas ou mais partes não alterava a estrutura geral da série. A Princesa e o Cavaleiro (1967), clássico de Osamu Tezuka, também seguia essa estrutura, mas houve momentos de grande impacto, como a morte redentora de dois vilões recorrentes (o bruxo Satan e sua esposa) em certa altura da série, até o final apoteótico em duas partes

Outro bom exemplo do padrão omnibus é o Ultraman original, de 1966, cujas histórias não tinham continuidade. O fio de cronologia era bem tênue (com exceção da máscara e traje, que foram sendo aperfeiçoados), se resumindo a aparições de novas versões de inimigos já vistos. Ao final de cada episódio, em geral ficava tudo como havia começado, deixando o ponto de partida para a história seguinte inalterado. Tanto foi assim que o último e fatídico episódio chegou sem aviso prévio. 
Ultra Seven: Um clássico em formato ominibus, mas
com um final apoteótico em duas partes.
Já em Ultra Seven (1967), o formato também era ominibus, mas o dramático final em duas partes criou uma tensão e um senso de conclusão que ajudaram a criar a atmosfera cult da série. 

A série seguinte, O Regresso de Ultraman (1971), apesar do formato de histórias fechadas (com eventuais arcos em duas partes) vários aspectos foram sendo modificados, criando um senso de continuidade. A estreia de uma nova arma, o Ultra Bracelete, uma troca de capitão no GAM - Grupo de Ataque aos Monstros, a morte da namorada e do cunhado do protagonista foram momentos de virada na série. Os Ultras sempre foram uma linhagem baseada no formato omnibus, ainda que Ultraman Ace (1972) tivesse um inimigo fixo, o Yapool, e Ultraman Leo (1974) fosse uma progressão de tragédias afetando a vida do herói. 

Na década de 1970, formatos intermediários foram sendo desenvolvidos. Havia um tema principal, uma grande ameaça a ser combatida, mas cada episódio poderia funcionar isoladamente. Porém, colocados em um contexto maior, ajudavam a contar uma grande saga. E é comum até hoje, seja em qual formato for, que os episódios finais sejam interligados com ganchos dramáticos, conduzindo a narrativa ao clímax e levando a série a uma conclusão. 
Yamato: Uma novela dramática sobre guerra espacial.
Uma série antiga que apostou no formato exclusivo de novela, com uma longa saga contada em capítulos foi o Yamato - Patrulha Estelar, em 1974. A audiência foi modesta e a série só vingaria e detonaria o fenômeno Anime Boom ao ser adaptada posteriormente para o cinema. Mas não é questão de dizer que o momento não era propício para abolir o formato omnibus

O animê que concorreu diretamente com o Yamato e venceu na época foi Heidi - A Garota dos Alpes (1974), que até já foi exibida no Programa Silvio Santos no final da década de 1970, na TV Record. Heidi era realmente uma novela em desenho animado, inspirado em um famoso romance suíço sobre uma garota órfã e seus amigos. Seu formato se mostrou importante para fidelizar o público, que teria que assistir a cada episódio para entender a história, até o emocionante final. 

O maior sucesso da animação japonesa no Brasil, Os Cavaleiros do Zodíaco (1986), seguia o formato novela, bem como Dragon Ball (1986), Yu Yu Hakushô e tantos outros. Arcos de histórias com dezenas de episódios se juntavam para compor uma grande saga. 

Já outros sucessos consagrados, como as séries originais Sailor Moon (1992) e Pokémon (1997), a despeito de evoluções e mudanças marcantes no decorrer da trama, seguia o formato misto, pendendo mais ao ominibus. Nem sempre o limite entre os formatos de roteiro geral é bem claro e fica complicado rotular.
One Piece: Um grande romance em animação.
Séries aparentemente intermináveis como One Piece (desde 1997, com mais de 800 episódios e em andamento), seguem o formato novela, mas com grandes arcos de história que vão se sucedendo. Se fosse literatura escrita, One Piece seria considerado um romance, que é mais extenso que uma novela, que por sua vez é maior que um conto isolado. 

Atualmente, quase toda nova série em animê é apresentada no formato novela, conforme visto em Fuuka (2017) ou GRANBLUE FANTASY The Animation (2017). A tendência atual de séries mais curtas, com temporadas de 12 ou 25 episódios, consagrou o formato, a ponto do grande público repudiar episódios filler. Dentre séries recentes que penderam mais ao omnibus, merecem destaque as adaptações em animê dos mangás Quem é Sakamoto?... e One-Punch Man (2015). 

Em termos de tokusatsu, apesar dos primeiros seriados terem seguido o formato ominibus, muitas produções foram fazendo o modo misto, como as franquias Super Sentai e Kamen Rider. Em cada um, desde o começo, é apresentado um grande inimigo que só será vencido no último episódio e cada aventura ou mesmo arco de dois ou três episódios teria uma trama auto-contida. Esse formato se consagrou e ditou os rumos das produções. 

Após o ano 2000, a Toei Company começou a trabalhar com a franquia Kamen Rider evoluindo para grandes épicos em capítulos cada vez mais interligados. Foi uma transição gradual, e o formato mais novelesco prevaleceu, sendo hoje obrigatório. 

Kamen Rider Gaim (2013): Os modernos Kamen Riders
deixaram o formato omnibus de lado.
Os Ultras, que ainda usam o formato misto de ominibus com novela, estão cada vez mais se aproximando do que é feito em animês e seriados Kamen Rider. Ultraman Orb (2016) e, principalmente em Ultraman Geed (2017), cada episódio lança novas perspectivas e acrescenta novos detalhes ou mistérios a uma grande trama que vai se desenrolando pouco a pouco. 

Em novelas, mesmo com diferentes roteiristas se revezando, há elementos que obrigatoriamente devem aparecer, de acordo com o planejamento do compositor da trama geral. No quesito desenvolvimento de personagens, o formato novela geralmente leva vantagem, pois as características de cada um vão sendo desvendadas ao longo das aventuras. Muitas vezes com reviravoltas marcantes, a imersão na história é mais intensa, com o interesse aumentando a cada episódio. Claro que isso não é uma equação matemática, e o êxito vai sempre depender de bons roteiristas e bons diretores, como em qualquer obra. 
Ultraman Geed: Uma grande saga, ampliando
a tendência já estabelecida em Ultraman Orb.
E apesar das vantagens do formato novela em termos de audiência e gosto popular, um episódio taxado pejorativamente de filler pode ser extremamente interessante. Pode mostrar outras facetas dos personagens, aprofundar relacionamentos, explorar motivações ou simplesmente desenvolver situações cotidianas, aumentando a empatia e imersão na história. 

Não há um formato superior. Apesar do formato novela ter vencido, o ominibus ainda oferece muitos atrativos e liberdade criativa aos roteiristas. Afinal, séries inteiras se tornaram clássicos seguindo o formato de histórias soltas. 

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16 comentários:

Franco Ikari disse...

Excelente artigo,nem sabia que esse estilo tinha um nome,sempre chamei de episódico.
Isso talvez tenha sido um fator que fez com que o anime acabasse tirando o tokusatsu de cena no Brasil(além da saturação de títulos) pois com Saint Seiya veio aquela necessidade de espectativa pro que viria acontecer em seguida graças aos cliffhanger da série,isso motivava a sempre manter o interesse.
Esse formato ominibus sempre causa confusão porque geralmente o termo filler é usado quando o anime alcança a obra original e criam episódios ou arcos inteiros de histórias até o mangá ter material suficiente pra adaptação mas erroneamente é usado em tokusatsu só por ser um.episodio que não avança o roteiro
Esse formato ominibus tem ótimas séries como Winspector e Solbrain que não possui um fio natrativo mas tem tramas fechadas com temáticas sensacionais como Solbrain ep 10,Os Velhos Incendiários,uns dos melhores episodios de tokusatsu que vi.
No entanto o formato novela foi determinante pros Heisei Riders serem minha franquia e favorita,deu uma sofisticação imensa no tokusatsu como um todo.
Curiosamente Garo usa ambos formatos,primeira metade ominibus segunda metade novela e dá um sentimento clásdico com o novo

César Filho disse...

Confesso que até algum tempo atrás eu tentava entender algumas "descontinuidades" entre um episódio e outro de Ultraman e principalmente do Ultra Seven. Isso até procurar entender o conceito do formato omnibus (este post me ajudou a entender ainda mais). A ordem dos episódios gravados na época também ajudam justificar a atemporalidade entre um ou outro episódio isolado. É notório, por exemplo, alternâncias entre o corte de cabelo da Anne, principalmente nos últimos episódios. Ora os cabelos estavam longos, ora estavam curtos.

Não que o formato seja obsoleto, mas gosto mais do formato novela é mais atrativo, principalmente hoje em dia, por acrescentar algo numa determinada mitologia, criar alguma expectativa ou quem sabe alguma imprevisibilidade. O formato omnibus tem também seu lado divertido em criar possibilidades, embora eu seja mais "adepto" de linhas contínuas.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Sr. Franco Ikari!

Bem lembrado, Winspector e Solbrain eram omnibus ao modo clássico, entre as que passaram no Brasil. E tinham histórias muito boas também.

Hoje em dia, praticamente não se usa mais o termo "omnibus" e você encontrará a definição somente materiais de referência antigos. Mas achei que precisava resgatar o termo pra fazer um contraponto ao formato consagrado.

Bem aproveitado, o formato novela permite um grande planejamento, mas ainda gosto muito do omnibus. Acho desafiador lidar com as limitações de espaço e tempo e conseguir contar uma boa história.

E falando em Garo, agora que assino a Netflix tenho a chance de ver inteiro e oficialmente. Uma hora preciso parar pra ver.

Valeu! Abraço!

Stefano Barbosa disse...

Que você acha do formato seriado e minissérie ??

Alexandre Nagado disse...

Fala, César!

Sabe que o lance do cabelo da Anne eu só fui perceber depois de adulto? Bom, ela era linda de qualquer maneira.

Eu gosto dos dois formatos, e estou curtindo muito o Geed, que é a maior incursão da Tsuburaya no formato novela.

Grande abraço!

Alexandre Nagado disse...

Bom, seriado e série de TV pra mim são sinônimos. Já minisséries eu também gosto, mas é um formato usado em vídeo, com 2 a 6 episódios, geralmente.

Abraço!

Usys 222 disse...

Muito bem feita a matéria, contextualizando o conceito e mostrando as mudanças do jeito de se contar histórias nos desenhos e séries japonesas.

Não nego que o formato contando uma grande história tenha seus atrativos, mas gosto muito do formato "omnibus", que dá bastante liberdade, tanto aos criadores quando aos telespectadores, que podem ver de forma eventual. Às vezes é mesmo preciso ignorar o que aconteceu em um capítulo anterior para fazer com que o atual tenha graça ou para criar tensão nele. Yuji Kobayashi menciona isso e discorre um pouco sobre o "ombnibus" em seu livro sobre como fazer um programa de Heróis de Tokusatsu.

Outro mérito do formato "omnibus" é que ele dá mais longevidade às séries. Um bom exemplo seria o desenho mais popular do Japão, Sazae-san, que continua até hoje. Doraemon também é assim. Outros exemplos seriam seriados de época, como Mito Koumon e Abarenbou Shogun, que chegou a 800 episódios. Todos conseguiram manter os mesmos personagens principais e sem precisar mostrar mudanças ou desenvolvimento em suas personalidades. Esses têm bastante apelo ao grande público, que não é otaku. E apesar de não serem muito conhecidos fora do Japão, são verdadeiros ícones nesse país.

De fato, não se pode dizer que exista um formato "melhor". Todos têm suas vantagens e desvantagens, que foram bem explicadas na matéria. Eu já prefiro procurar o que há de bom em cada seriado, entender sua proposta e sua estrutura e curti-lo como ele é.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Mr. Usys!

Realmente, o melhor é entender a proposta de cada produção e curtir como ela foi concebida. E bem lembrado mencionar esses títulos, são todos de grande importância no Japão.

Eu cresci vendo séries omnibus, tanto japonesas quanto americanas, e até hoje gosto desse formato. Séries formato novela eu prefiro quando não ultrapassam os 50 e poucos episódios. Acho que por isso nunca tive muita paciência pra ver muitas séries em animê consagradas que fossem de longa duração.

Falou! Abraço!!

Stefano Barbosa disse...

Usys e Nagado, curiosamente me acostumei com o formato "novela".
talvez por hábito

Ricardo disse...

Ótimo texto como sempre, Nagado.

Gosto dos dois formatos de estruturação da história de uma série. Vejo virtudes e defeitos em ambos os casos.

Historicamente acho que a primeira opção por se produzir séries televisivas no formato omnibus foi o tecnológico mesmo. Até o final da década de 70 era quase impossível para o público médio gravar a programação da tv.

Com isso, as produtoras optavam por criar tramas que geralmente se fechavam dentro do próprio intervalo de 30 ou 60 minutos de duração do programa. Com isso, você não alienaria o telespectador casual ou aquele que tivesse perdido um episódio.

Mas mesmo nos primeiros anos da tevê você via algumas séries que traziam subtramas ao longo dos meses. Um exemplo é na segunda temporada de I Love Lucy, quando a personagem título fica grávida, acompanhando a gravidez na vida real da Lucille Ball. O mesmo ocorreria anos depois em A Feiticeira. Até mesmo em os Flintstones tivemos o nascimento da Pedrita e o surgimento do BamBam.

Coincidência ou não, foi no período da popularização do vídeo-cassete nos EUA que séries que usavam a linguagem das soap operas, com histórias que se desdobravam ao longo dos episódios como Dallas e Dinastia, começaram a se popularizar no horário nobre. Mas de modo geral ainda tínhamos a maioria das séries episódicas.

Nos anos 90 tivemos a primeira série que surfou no início da internet: Arquivo X. Nas jurássicas listas de discussão, fãs de todo mundo se encontravam para discutir os episódios e comentar sobre a chamada "mitologia da série" - que não estava presente em todos os episódios, o que a caracterizaria como mista, conforme o termo que você usou para descrever Sailor Moon.

E finalmente na década passada tivemos Lost, que foi a série que ajudou a difundir os downloads e as legendagens não oficiais em tempo quase real. Aqui já tínhamos uma produção com trama complexa, em que todos os episódios contavam e eram fundamentais para o entendimento pleno.

Acredito que essa seja uma tendência quase irreversível, ainda mais com o binge watching. Em maior ou menor grau, praticamente todas as séries atualmente trazem algum arco.

Só o que lamento é quando vejo comentários diminuindo um episódio pelo simples fato de ser um filler. Usando dois exemplos da chamada "Geração Manchete, tivemos excelentes episódios como "O Enviado do Planeta Atlanta" de Changeman, "Dados Mortais do Monstro Eletônico" de Jaspion, que não agregaram muita coisa para a trama principal, mas que em muitos casos ajudam a sedimentar mais as características de um ou mais personagens ou de enriquecer o mundo ficcional em questão. Resumindo, são bons episódios - e no final, acho que é o que importa.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Ricardo!

Muito legal essa comparação com as séries americanas. Também fazem sentido os paralelos com o advento do videocassete e da internet. A tendência atual também me soa como irreversível, mas sempre haverá espaço para quem busca um entretenimento mais solto, sem a obrigação de ver tudo pra entender a história.

O que me motivou a escrever este post foi ver a quantidade de reclamações de vários segmentos de fandom sobre essa questão dos fillers. Acho que foi dado o recado e os comentários aqui postados deram muito mais consistência ao tema desenvolvido.

Obrigado! Grande abraço!

Anônimo disse...

De: LucianoMT

Olá, Nagado. Tudo bem?

Também recebo com ar de surpresa que o tipo de trama onde os capítulos enclausurados em si mesmos são chamados de "Omnibus". Desde agora eu já declaro ser mais adepto do estilo "novela".

Apesar de ser raro nestes dias, narrativas omnibus são presentes até hoje, como nos "Simpsons" e, até pouco tempo, "House, MD", por exemplo.

Indo para o lado do Tokusatsu, ainda dos anos 80, o omnibus era predominante. Vendo por esse lado, quem sabe se umas das principais razões do sucesso delas (além do fator novidade) era o fato do público ter uma tolerância maior com as infindáveis repetições de capitulos justamente por este estilo de narrativa? Um exemplo de um bom "filler" que me vem até hoje à mente é o clássico episódio 27 de Jiraiya (Jiraiya, o inimigo de Toha).

Mas no fim, o que importa é ser bom no que se faz. Haja mérito alguém conseguir tornar e manter uma história interessante por tanto tempo.

Alexandre Nagado disse...

Olá, LucianoMT!

Tudo certo por aqui! As narrativas fechadas em um único episódio existem em praticamente todas as séries em formato novela ou grande saga. Mas hoje ganharam o termo pejorativo "filler". Foi pensando nisso que resolvi escrever este post. E muito bem lembrado esse episódio do Jiraiya.

Como a maioria das séries dos anos 80, tinha um formato misto, com um grande inimigo a ser derrotado, mas com a maioria dos episódios auto-contidos. Esse do Jiraiya era praticamente isolado do andamento da série, mas foi muito bom. Acrescentou mais nuances ao Toha e ainda teve a participação do grande Kenji Ohba.

Valeu! Grande abraço!

Bruno Seidel disse...

Adoro essa discussão!

De fato, esse repúdio aos chamados "fillers" é um fenômeno intertessante de se observar porque, se formos analisar de forma isolada as séries clássicas dos anos 70/80, "todos episódios eram fillers". A verdade é que ambos os formatos são aceitáveis e podem funcionar, como bem observado.

Eu acredito que o formato "novela" combine mais com séries diárias (como as próprias novelas da Globo) ou aquelas lançadas diretamente para streaming (como as séries que o Netflix lança de uma vez só, sugerindo que a pessoa assista quando bem entender e no ritmo que preferir). São as chamadas “séries de maratona”, nas quais você engata a marcha e assiste tudo duma vez só, se tiver fôlego para tal. Acho bastante agoniante ter que esperar uma semana inteira para saber o que vai acontecer no próximo episódio (que é o que acontece com seriados no formato "novela" cuja exibição ocorre de forma semanal na TV). Para esse caso, prefiro o formato omnibus.

Tem até uma curiosidade minha sobre esse tema: eu descobri o significado das famosas hiraganas "tsuzuku" (つづく) por volta de 1997, quando comecei a estudar japonês. De tanto assistir às séries da Manchete, eu já tinha decorado aquele trio de ideogramas que sempre aparecia no canto inferior direito da tela ao final dos episódios, mas não sabia seu significado. Quando fiquei sabendo que significava "continua", fiquei surpreso: "Como assim continua?! São episódios fechados, com começo-meio-e-fim. Não têm continuação nenhuma. O que tem continuação é CDZ, é Shurato, é Yu Yu Hakusho..."

Alguns seriados americanos utilizavam os dizeres "to be continue" ao término de episódios que emplacavam uma sequência direta. Isso as mantinha no formato omnibus, mas com suas esporádicas exceções.

E só pra concluir o raciocínio sobre os "malditos fillers": quando esse tipo de episódio é percebido como tal, isso normalmente ocorre quando a "encheção de linguiça" destoa no meio de um arco empolgante. Em Dragon Ball Z, por exemplo, temos um divertido episódio em que Goku e Piccolo resolvem fazer auto-escola para tirar carteira de motorista. É um filler escrachado. Mas acontece no meio da saga de Cell, com o vilão a ser batido. Isso pode, sim, provocar uma certa frustração no espectador (se for uma exibição semanal, então, nem se fala), que está ansioso pra ver a história evoluir.

Mas sou obrigado a reconhecer que existem episódios isolados divertidíssimos e que volta e meia eu assisto só pra me relaxar, como "O Meteorito Misterioso" (Ultraman), "Canção Fatal" (de Changeman) e "We are Nebula!" (Ultraman X).

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!

As séries japonesas sempre foram semanais. Então, ficar sempre com um momento de tensão e clímax sendo cortado para continuar no episódio seguinte não funciona com todo mundo. Pra mim, cansa se é sempre assim. Ao invés de grudar na história, tendo a querer me afastar. Gosto de arcos menores, tramas mais contidas. O formato misto pra mim é o que funciona melhor. Há uma trama auto-contida no episódio, mas outra maior, mais abrangente, que se desenrola aos poucos.

Mas como já lembraram bem aqui, cada formato tem suas vantagens. Se for falar em episódios filler, acho que todos têm os seus favoritos. No Jaspion, aquele do John Tiger é um dos mais memoráveis. E lembrei que li alguém no Twitter comentar sobre o Ultra Seven. Ele disse mais ou menos assim: "Ultra Seven tem 4 episódios de história e 45 fillers. E é bom pra caramba!" Foi uma definição feita por alguém da geração atual e foi bem na mosca. Agora que eu ressuscitei o termo "omnibus", dá pra defender melhor os fillers que tanto gostamos, ah ah.

Valeu! Abraço!

Edmar Filho disse...

Às vezes o problema não é o "FILLER" em si, é como por vezes ele é encaixado. O formato "Omnibus" que está sendo comentado na postagem funciona muito bem hoje para obras de entretenimento mais descompromissado (caso de produções com foco na comédia) ou até para um público mais infantil, como Youkai Watch e o já citado One Punch Man. O problema é quando algumas séries, talvez por mesclarem o formato omnibus com o formato novela às vezes parecem não se decidir entre uma coisa e outra, o que é PÉSSIMO pra mim. Vou pegar aqui como exemplo alguns animes como Yu-Gi-Oh Duel Monsters, Inu-Yasha, Slayers e até mesmo Dragon Ball Super.

Em Yu-Gi-Oh! por exemplo, existem sete episódios entre o fim dos arcos Reino dos Duelistas e início do arco Batalha da Cidade que mostram elementos que fogem bastante do convencional da série e que são até interessantes, com destaque para o mini arco "Herois Lendários" que vai dos episódios 43 a 45 onde pela primeira vez, um pouco do universo do jogo de cartas é explorado com os herois em uma aventura dentro de uma espécie de jogo de RPG, algo bem fora dos convencionais duelos de cartas da série. Esses episódios são interessantes por serem diferentes e não atrapalharem ou quebrarem o ritmo da série como o arco filler do Mundo Virtual do Noah que quebra o clímax do final da Batalha da Cidade.

Em DB Super, quase todos os episódios fillers tem um ar mais cômico e têm acontecido entre uma grande saga e outra não prejudicando o andamento das histórias principais, ao contrário do anime de um certo garoto ninja loiro.

Em Slayers, o formato predominante é o omnibus, o problema é que aqui a ênfase na comédia e em várias histórias fechadas prejudica bastante um desenvolvimento que a série e seus personagens deveriam ter a troco de...MAIS comédia, quase sempre forçada, pois a terceira temporada Slayers TRY deixa furos gigantes no roteiro e me proporcionou um dos episódios mais anti-climáticos como fã da série.

E Inu-Yasha, apesar de ter uma história que poderia ter sido muito mais concisa tanto no anime quanto no mangá, é lotado de episódios que às vezes só acrescentam 1% ao desenvolvimento da história e tem um desenvolvimento que chega a ser mais lerdo que o de muitas novelas, especialmente no romance que é um de seus atrativos.