terça-feira, 1 de agosto de 2017

Novo Lobo Solitário - A Continuação Oficial da Lenda

A continuação oficial de um dos maiores clássicos do mangá!
A arte de Hideki Mori, legítimo
sucessor do desenhista original,
o falecido Goseki Kojima.
(Atenção: O início do enredo entrega o final de Lobo Solitário. Se ainda não leu o final da série original, decida se deseja prosseguir com a leitura desta resenha.)


Em uma praia,  jazem os corpos de dois inimigos mortais. Eles são Itto Ogami, o outrora executor oficial do Shogun, e Retsudo Yagyu, o conspirador e líder do clã de assassinos que levaram a família Ogami à ruína. Depois de uma longa jornada de ódio de vingança, ambos estão caídos. Próximo a eles, o pequeno filho de Ogami, Daigoro, viu seu mundo desabar. E isso com apenas cinco anos de idade e já tendo presenciado inúmeras mortes violentas. 

Ao longe, o próprio Shogun, o governante militar do Japão do período feudal, observa respeitoso, ciente que dois dos maiores lutadores do país ultrapassaram seus limites. Ele e seus homens se viram e vão embora, deixando Daigoro sozinho. O fardo que ele carrega é pesado demais para que alguém lá tivesse coragem de ajudar a pobre criança. 

Mas as engrenagens do destino se movem e Daigoro é encontrado por um samurai andarilho de nome Shigekata Togo. Ele se comove com Daigoro e resolve cuidar dele. 
Com o samurai Shigekata Togo, Daigoro
descobre uma nova figura paterna. Mas sua
vida continuará sem conhecer a segurança e a paz.
A princípio desconfiado, Daigoro testa o andarilho com a astúcia que herdou de seu pai. Mas aos poucos, começa a se afeiçoar a Togo. Ele é um guerreiro tão habilidoso quanto fora o temido Itto Ogami e possui um coração nobre, capaz de se emocionar ao se dar conta de como foi dura a vida do pequeno sobrevivente. 

Juntos, eles terão que enfrentar muitos desafios, pois uma conspiração governamental está em andamento e eles logo serão envolvidos em uma teia de intriga e violência. O vácuo de poder criado com a morte de Retsudo Yagyu está em jogo e assassinos espreitam as sombras, almejando cada vez mais influência no conturbado país. Alem disso, há pessoas atrás da suposta fortuna escondida de Itto Ogami, o que complica ainda mais a vida de Daigoro e seu novo protetor. Uma trilha, não de vingança, mas de sobrevivência em um mundo turbulento, está começando para duas vidas reunidas pelo Destino. 

E foi também por linhas tortas do acaso que surgiu a fagulha criativa que deu origem à continuação de Lobo Solitário, um dos maiores clássicos, não apenas do mangá, mas dos quadrinhos em todos os tempos. Além de arrebatar milhões de leitores pelo mundo, Lobo Solitário virou filmes, séries de TV e se tornou uma figura icônica da cultura pop mundial. 
Ilustração da quarta capa.
Seu final trágico e em aberto marcou o fim de uma obra-prima reverenciada por gerações. Uma continuação sempre foi sonhada por muitos fãs e especulações foram criadas ao longo dos anos, tanto pelo final do mangá quanto de suas adaptações. Mas em 2000, o desenhista Goseki Kojima faleceu, deixando atordoado seu amigo e parceiro criativo de tantos anos, o roteirista Kazuo Koike. Com isso, foram enterradas quaisquer possibilidades de uma continuação, pois Koike jamais imaginou contar tal história sem os traços de Kojima. Mas a situação ainda sofreria uma reviravolta inesperada. 

Segundo o próprio escritor conta em texto no volume um, a Copa do Mundo de Futebol 2002 teve impacto na continuação de Lobo Solitário. Ainda abalado com a morte do velho amigo Goseki Kojima, Kazuo Koike estava deprimido e sem vontade de escrever coisa alguma. Foi quando o exótico corte de cabelo usado pelo jogador brasileiro Ronaldo na final da Copa chamou a atenção das pessoas. 
Ronaldo, na final
da Copa de 2002.


Enquanto no Brasil se comentava que o corte do Ronaldo lembrava (vagamente) o cabelo do Cascão, personagem de Mauricio de Sousa, para o público japonês, a comparação era bem mais precisa: parecia o cabelo de Daigoro, o filho do Lobo Solitário. Foi quando a questão sobre o destino final de Daigoro veio à tona, com muitas pessoas comentando e falando com o autor. Isso acabou acendendo uma fagulha em Koike, que logo se pôs a pensar. 

Em 2004, depois de muito planejamento, estreava o Shin Kozure Ookami, ou o Novo Lobo Solitário (新・子連れ狼), nas páginas da revista Weekly Post (週刊ポスト), da editora Shogakukan. A Post não é uma revista específica de mangá, sendo uma publicação para adultos com reportagens, entrevistas e ensaios sensuais ou eróticos de modelos e atrizes. Em meio a esse mix editorial, aparecem séries de mangá voltadas ao público adulto. 
Capa do vol. 2.
Para a tarefa de substituir Goseki Kojima na arte, foi escolhido o desenhista Hideki Mori, um fã da obra original, que teve o cuidado de seguir da forma mais respeitosa possível os traços de Kojima. Não se trata de cópia ou simples emulação, mas sim do trabalho de um profundo conhecedor da obra original, preocupado em manter a mesma atmosfera. 

O traço de Mori tem estrutura diferente, pende mais ao realismo do que ao cartum. Sua arte-final a nanquim não tem a mesma leveza caligráfica das pinceladas de Kojima, mas é precisa e elegante. Também é um desenho muito expressivo, capaz de criar imagens poderosamente dramáticas e o uso de hachuras segue o estilo do falecido mestre. Mesmo com as diferenças de estilo, há partes que parecem ter sido supervisionadas por Kojima, tamanha a reverência com que as páginas foram produzidas. 
Shikaku no Ko - A saga de Daigoro.
A influência de Goseki Kojima é tão marcante que seu nome sempre aparece nos créditos como autor da arte original. 

A parceria entre Koike e Hideki Mori deu tão certo que ambos lançaram em 2007 o mangá Soshite Kozure Ookami - Shikaku no Ko, ou Finalmente, Lobo SolitárioO Filho do Assassino (そして - 子連れ狼 刺客の子), que renderia cinco volumes e concluiria em definitivo a saga de Daigoro. A série foi publicada na revista Jidaigeki Manga JIN, da editora Koike Shoin, especializada em histórias de época. 

Dar continuidade à maior aventura de samurais em mangá de todos os tempos é uma tarefa difícil. Tão difícil que só poderia ser cumprida digna e honestamente por seus autores originais. E com certeza, os dois - Koike e Kojima - estavam lá trabalhando, cada um em um plano de existência. 


NOVO LOBO SOLITÁRIO

Roteiro: Kazuo Koike
Arte: Hideki Mori

Arte original: Goseki Kojima

Editora: Panini Comics/ Planet Manga
Formato: 13,7 x 20 cm, com 208 páginas
Total de volumes: 11
Lançamento no Brasil: Abril de 2017
Preço: R$ 18,90
Periodicidade: Bimestral
Classificação indicativa: 18 anos

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8 comentários:

Stefano Barbosa disse...

Vale a pena eu ler ?

Alexandre Nagado disse...

Olha, se você gosta da saga original, recomendo que leia o Novo Lobo Solitário. Começa do ponto onde a outra série terminou e tem um desenrolar coerente. Mas gosto é gosto.

Abraço!

Mauricio disse...

Eu estou gostando bastante. Manteve o mesmo nível tanto em roteiro quanto em arte. Daigoro merece uma série para contar sua história.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Mauricio.

O pequeno e silencioso Daigoro é um personagem fascinante. Apesar de tudo, ele não perdeu o olhar de criança, mas ao mesmo tempo, é mais forte do que a maioria dos adultos. Mal comecei a ler, e já estou curioso sobre a série seguinte.

Obrigado pela participação e espero que apareça mais por aqui.

Abraço!

Usys 222 disse...

Incrível como são as coisas. Como um acontecimento que parece não ter nada a ver influencia outro. Essa da Copa do Mundo fazer Kazuo Koike escrever um novo Lobo Solitário é um exemplo disso. E isso é um grande desafio, já que são poucos os autores que conseguem fazer uma continuação que agrade aos fãs, que muitas vezes "sabem mais que o próprio criador". Ainda por cima algo que se tornou um ícone da cultura pop mundial.

Felizmente, Kazuo Koike conseguiu conduzir bem a nova história, com uma temática que é diferente o suficiente da original. E ainda por cima encontrando um desenhista que manteve o respeito a Goseki Kojima. Algo que parecia ser impossível acabou virando realidade. Impressionante!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Eu assisti a essa partida ao vivo. Que foi sensacional, aliás, pois o Brasil ganhou bonito de um adversário forte e com dois gols do Ronaldo. Eu me lembro na época do pessoal falando do "cabelo do Cascão" e eu falava em casa que o cabelo lembrava era o do Daigoro, do Lobo Solitário. E eu nem sei se o próprio Ronaldo ficou sabendo do "efeito borboleta" de seu corte ou o que inspirou mesmo. Será que alguém que conhecia o mangá disse que pro Ronaldo que esse corte ia pegar bem no Japão e dar sorte? Talvez um dia saibamos da verdade.

De qualquer forma, o primeiro volume é emocionante, de dar nó na garganta mesmo. Foi pra dissipar qualquer dúvida acerca da qualidade do material. Kazuo Koike teve competir com sua própria obra-prima e fez bonito.

Valeu! Abraço!

Rogério disse...

A vitalidade criativa de Kazuo Koike é impressionante.

Alexandre Nagado disse...

Concordo, e ele nunca fala em aposentadoria. Sorte dos seus leitores!