quarta-feira, 14 de junho de 2017

Clássicos do Pop Japonês: "Get Wild", do Animê CITY HUNTER

Em uma década de grande efervescência do mercado musical, um tema de animê fez sucesso a ponto de se tornar uma canção cult por décadas, tendo vida própria.

Capa do single de 1987 que marcou época no Japão.

A década de 1980 viveu uma explosão do mercado fonográfico japonês e lá, assim como no resto do mundo, houve uma intensa movimentação das gravadoras lançando muitos novos artistas. Além disso, o animê Macross havia detonado o segundo fenômeno de popularidade dos desenhos animados, conhecido como Anime Boom, com um elemento adicional. Além da ação de robôs, naves espaciais e um romance de fundo, a música pop passava a ser um elemento de destaque no conjunto de cada obra. 

A canção de maior impacto de Macross, a
"Ai~Oboeteimasu ka?" ("Você se lembra do amor?", do longa de 1984) levou o pop mais juvenil e romântico para o mundo dos animês. A canção que embalou o público tinha tudo a ver com a história e era parte indissociável do título. O que não importava muito para os empresários, interessados nas parcerias comerciais entre produtoras de animação e gravadoras. 

Os desenhos seriam apenas vitrines para as gravadoras lançarem artistas e promoverem canções, seja quais forem. Isso existe até hoje, com músicas que pouco ou nada têm a ver com o desenho ou série em questão. E muitas canções fizeram enorme sucesso tocando principalmente em aberturas e encerramentos de séries animadas. 

E no meio de toda essa agitação do mercado, vários nomes da música pop se envolveram com o animê City Hunter, um dos mais famosos títulos da segunda metade da década de 1980.

O encerramento original de City Hunter:

シティーハンター / CITY HUNTER - Get wild (ED1) por hiragana3

Criação de Tsukasa Hojo, City Hunter foi um mangá de enorme sucesso da revista para garotos Shonen Jump (Editora Shueisha), com 35 volumes compilados originalmente entre 1985 e 1991. A série, que conta as aventuras do detetive particular (e mulherengo) Ryo Saeba e sua parceira Kaori Makimura, fez parte de um período áureo da publicação, que também teve, na mesma época, Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e vários outros sucessos. 

City Hunter foi adaptado em quatro séries de animê para TV, além de aventuras especiais para TV, cinema e vídeo, todas feitas pela Sunrise, a mesma produtora de Gundam e Cowboy Bebop. A obra também teve uma versão live-action para cinema com Jackie Chan em 1993 e uma outra, como série de TV, na Coréia do Sul em 2011. É um título de primeira linha, cheio de personagens carismáticos, ação, humor (bem politicamente incorreto), romance e drama. 

O mangá ainda ganhou uma continuação cheia de elementos trágicos e bem mais pesada, intitulada Angel Heart, entre 2001 e 2010, que conquistou um bom sucesso. Mas em termos comerciais, City Hunter permanece o maior êxito comercial do autor Tsukasa Hojo, e a popularidade do título se estendeu às paradas musicais logo em sua estreia na TV, em 1987. 
Ryu Saeba e Kaori Makimura, os
protagonistas de City Hunter.
A primeira abertura, "City Hunter~Ai wo kieanaide" ("Não deixe o amor ir embora"), com Kahoru Kohiruimaki, fez sucesso e chegou à oitava posição da parada de sucessos da empresa Oricon, mas o tema de encerramento é que entraria pra História. Era a canção "Get Wild", da banda TM Network, uma das mais importantes na consolidação do pop eletrônico no Japão.

TMN surgiu em 1984 e foi um grupo que se consagrou misturando várias vertentes de rock com o emergente techno-pop, uma combinação que estava conquistando vários países. O "TM" do nome era alusivo à região de onde os três vieram, Tama (distrito de Tokyo), mas também significava "Time Machine". A banda era formada por Takashi Utsunomiya (voz e vocais, violão, baixo), Tetsuya Komuro (teclados, guitarra, violão, bateria e vocais) e Naoto Kine (guitarra, violão, teclados, baixo, harmonica e vocais). 
TM Network - Da dir, p/ esq.: Naoto Kine,
Takashi Utsunomiya e Tetsuya Komuro.

Os três eram compositores, Komuro e Kine assinavam os arranjos e eventualmente outros músicos ajudavam em algumas criações. Uma dessas colaborações se tornou o primeiro grande sucesso da banda.

Com letra de Mitsuko Komuro e melodia de Tetsuya Komuro (sem parentesco entre eles), "Get Wildfoi lançada em 8 de abril de 1987, sendo o 10º single do TMN. Nesse caso, letra e música tinham tudo a ver com o clima ousado, aventureiro e descolado da série. A canção também era dançante, bem techno-pop, e seu balanço conquistou um público amplo, que não assistia ao animê. O tema chegou ao nono lugar da parada semanal da Oricon e em sexto na medição da The Best 10, vendendo mais de 500 mil cópias. 

Na época, o termo J-pop ainda não fora criado, e as músicas juvenis ainda eram chamadas de "kayoukyoku" (de "música popular"). Mas com o advento de batidas eletrônicas, termos como "new music" e "pops" começaram a ser usados, até que nos anos 1990, veio a definição J-pop, pra diferenciar a música jovem japonesa do pop de outros países. Consequentemente, muita coisa feita nos anos 80 foi sendo considerada como J-pop, ainda que de uma fase de transição em termos de estética e mercado.

O TM Network em um programa de TV, com Get Wild ´89 (versão de 1989):
- A música começa a 1m38s


Na década de 1990, que foi ainda mais efervescente no mercado musical, Tetsuya Komuro se tornou o maior nome da indústria de entretenimento de seu país, compondo e produzindo para alguns dos maiores astros da época. 

TK, como também é conhecido, lançou sucessos gravados por nomes como Namie Amuro, trf, Tomomi Kahala, hitomi, Ryoko Shinohara e também liderando sua própria banda, o globe, fundada em 1995. Além disso, o TMN se mantém em atividade até hoje, apesar de alguns hiatos. Um desses hiatos foi provocado por um evento traumático: a prisão de seu mais ilustre integrante.

Nascido em 1958 e um dos músicos mais ricos do Japão, Tetsuya Komuro chegou a ser preso em 2008. Foi acusado de fraude na venda de direitos de suas músicas a um investidor. Pressionado, confessou o crime, segundo ele motivado pela necessidade de levantar uma alta soma para pagar a pensão de sua ex-esposa. 

Livre da cadeia após cerca de seis meses, conseguiu renegociar sua dívida e se livrar de complicações. Caso raro dentro da rigorosa mídia japonesa, TK conseguiu retomar a carreira sem grandes sequelas e reativou sua carreira de compositor, produtor e músico de suas bandas globe e TM Network. O público logo voltou a recebê-lo de braços abertos. 
Tetsuya Komuro, um dos mais importantes músicos,
compositores e produtores do J-pop, em todos os tempos.
Em abril passado, saiu no Japão um álbum quádruplo reunindo dezenas de versões e remixes de seu primeiro grande hit, por músicos e DJs renomados. Com 36 faixas, GET WILD SONG MAFIA é o reflexo de um trabalho que ficou marcado para uma grande parcela do público japonês. 

O álbum chegou ao quarto lugar da parada semanal e em primeiro na parada diária da Oricon entre os álbuns mais vendidos, fazendo do revival do velho sucesso um fenômeno de vendas, afinal o álbum consiste em quatro CDs com variações de uma mesma canção. Uma versão "resumida" chamada GET WILD 30th Anniversary Collection - avex Edition foi lançada em maio pela gravadora avex trax.

Presente em coletâneas tanto da trilha de City Hunter quanto do TMN, Get Wild foi comprada por muito mais gente do que o meio milhão que a consagrou na época. 

Até hoje, permanece como uma das melhores e mais bem sucedidas parcerias entre as indústria da música pop e do animê. 


O vídeo promocional de GET WILD SONG MAFIA. 
36 variações da mesma música.


::: E X T R A S :::

1) Get Wild, na versão do globe:

- Em 1995, Tetsuya Komuro tornou-se integrante, compositor e produtor do grupo globe (escrito assim mesmo, em letras minúsculas), que ele havia formou com Keiko (voz e vocais) e Marc Panther (rap, vocais, DJ). Entre 2002 e 2003, chegou a ser um quarteto, com a breve passagem do baterista e pianista Yoshiki, fundador da banda de rock X Japan. Em 2010, o trio globe revisitou o clássico tema de City Hunter, que sempre empolgou as plateias japonesas. 




2) Get Wild, por Nami Tamaki:

- Atriz e cantora de sucesso, sua versão para a canção foi lançada em 2005, como parte de seu terceiro álbum, "Speciality".



3) Get Wild, pela Acacia Orchesta:

- Um registro ao vivo e cheio de balanço com o toque jazzístico da Acacia Orchesta, excelente banda do circuito pop alternativo. 

Formada pelos talentos de Misaki Fujiwara (vocais), Hirofumi Nishimura (piano), Masaru Sano (baixo) e Keisuke Kitagawa (bateria), a Acacia Orchesta ainda merece sua chance de mostrar ao grande público sua energia e habilidade musical. A versão deles, registrada em 2016, é a minha favorita desta seleção.

8 comentários:

Bruno Seidel disse...

Adoro essa música!!

No post dos animesongs em versão sinfônica, você chegou a comentar sobre alguns temas ganharem "vida própria" para além das produções às quais são vinculados. Get Wild certamente se encaixa nesse exemplo.

A primeira imagem que me vem à cabeça quando escuto falar em City Hunter é a do filme live action com o Jackie Chan e não o anime, por incrível que pareça! Lembro de ter visto a VHS desse filme na prateleira da locadora (nossa! faz tempo mesmo!)

Essa versão ao vivo de 2017 ficou muito legal, ein!!! Pena que o vídeo esteja picoteado, pois fiquei com vontade de ver a música na íntegra.

Já a versão do TM Network na TV ficou bastante rasurada, com um ruído chato no fundo, o que acaba avacalhando o vídeo. :\

A versão da Nami Tamaki ficou muito interessante, até porque fugiu bastante do estilo "anos 80", uma das principais características da versão original.

Agora, sou obrigado a concordar que a versão de 2016 apresentada pela Acacia Orchestra é a melhor de todas! De arrepiar! Que banda sensacional!!! E que vozeirão da Misaki Fujiwara!

Abraços!
Bruno

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!

Essas apresentações de TV dos anos 80 são tiradas de fitas VHS e o vídeo ficou com som ruim mesmo. Mas como é um registro raro, achei que valia a pena manter.

Eu não sei de nenhum outro álbum quádruplo com variantes da mesma canção. É coisa rara mesmo. Teve muito tema legal nos anos 80 e eu gosto de alguns que não tinham nada a ver com a série mesmo. Mas essa Get Wild, desde que ouvi num velho VHS de locadora da colônia japonesa, chamou minha atenção.

E o filme do Jackie Chan é MUITO legal. Ele só leva em conta o lado cômico de City Hunter, sem o romance e o drama, mas é bem legal. Claro que você esquece do Ryo Saeba quando o Jackie Chan está em ação, mas o filme é diversão garantida.

Valeu! Abraço!!

Usys 222 disse...

Vi pouca coisa de City Hunter. Só os especiais de cinema que passaram na Locomotion e umas folheadas no mangá enquanto esperava pelo lamen em um restaurante. Ah, e o filme com o Jackie Chan.

Mas me lembro bem da interpretação do grande Akira Kamiya. Até hoje ele diz que esse é o personagem com o qual mais se identificou.

Não conhecia a música, mas os trabalhos do Tetsuya Komuro são grandes marcos na história do J-Pop. E pelo visto ele já atuava bem antes desse termo ter sido inventado. Até dá para sentir que a "batida" e a melodia lembram alguns de seus trabalhos posteriores. Não entendo muito de música, mas dá para ver que é a cara dele.

Alexandre Nagado disse...

E aí, Usys!

Eu vi poucos episódios da primeira temporada, o longa "A Canção da Magnum" e o filme com o Jackie Chan. E tenho alguns volumes aleatórios do mangá. Um dia preciso ver ao menos a série original inteira. Lembro de ter gostado dos temas de abertura e encerramento e ter conseguido uma fita cassete com elas, na época em que frequentava o Centro Cultural. Como era duro conseguir material naquela época, não é mesmo?

O techno-pop me fisgou um tempo nos anos 80. Do pessoal do Brasil, eu curtia muito o Metrô, Ritchie e especialmente o RPM. Rock e techno-pop foram uma combinação explosiva na época. E Tetsuya Komuro levou isso pra vida toda.

No geral, gosto muito mais de melodia do que batida, ritmo. É só ver meus gostos (CHAGE and ASKA, Anzen Chitai, THE ALFEE...), mas nos anos 1990 comprei vários singles produzidos pelo TK. Os temas de SF-II cantados pela Ryoko Shinohara, mais alguns singles da Namie Amuro e mesmo do globe. Não dá pra negar que o cara tem um "toque de Midas", e faz isso com músicas bem produzidas, de bom gosto. Ele é incrivelmente produtivo e com rigoroso padrão de qualidade.

E fico contente por ele ter conseguido uma segunda chance após a prisão. Ao contrário de outros artistas que já foram presos, o TK o público recebeu de braços abertos. E ele até confessou que fez uma fraude, cometeu um golpe financeiro e foi perdoado pela opinião pública. A meu ver, isso seria mais grave do que consumir drogas, porque ao se drogar a pessoa prejudica apenas a si própria. Mas parece que o caso dele foi bem mais leve para a opinião pública, dada a diferença de tratamento entre o caso dele e o do ASKA, por exemplo.

Bom, o TK, assim como o ASKA, são e serão sempre artistas de primeiro nível. Isso ninguém tira deles.

Abraço!!

Stefano Barbosa disse...

Foi por causa dessa música que aprendi a palavra "asufaruto" (asfalto).
Essa palavra foi emprestada do português?

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Stephano!

Na verdade, vem do inglês "asphalt". "Asufáruto" é a forma como os japoneses leem asphalt quando ele é adaptado ao modo silábico japonês, que não tem "T" mudo e troca os "L" por "R" (como em "arara").

Valeu! Abraço!

samurandre disse...

Ja assisti serie original inteira e ela é incrivel , com muito humor, personagens marcantes e uma boa historia principal

É um daqueles animes que se você começa a assistir não consegue mais parar, com a aura antiga dos anos 80 que animes atuais não possuem

E a série possui outras atimas musicas de opening e ending, e destaco a terceira opening com a musica Angel Night

https://www.youtube.com/watch?v=NVKqS7hkxTQ

Alexandre Nagado disse...

Olá, tudo bem? Que dica bacana essa, obrigado.

City Hunter tem uma trilha sonora clássica. Tenho um álbum original de 91 da série que parece um "best hits" da época, com músicas muito boas e que ajudaram a compor o clima, alternando aventura e romance. Um trabalho diferenciado e um caso de excelente parceria com a indústria fonográfica.

Valeu, caro Samurandre! Apareça mais vezes por aqui.
Abraço!