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terça-feira, 21 de março de 2017

Kazuo Koike - Roteirista, letrista e professor

Conheça a carreira do escritor de Lobo Solitário, Yuki, Crying Freeman e outros clássicos.
Kazuo Koike, um dos mais importantes
roteiristas da história do mangá.

No mercado dos quadrinhos japoneses, os grandes nomes geralmente são artistas que escrevem e desenham suas criações. Para atender à demanda por produção em escala industrial, usam assistentes para cumprir diferentes etapas do trabalho, como acabamento, cenários, letreiramento dos balões e efeitos gráficos. É um modo de produção diferente do que existe nos EUA, onde é mais comum a divisão de cada etapa, com artistas especialistas para roteiro, desenho à lápis, arte-final, letras e cores. 

Pontuadas essas diferenças, vale dizer que, assim como há grandes autores que escrevem e desenham nos EUA, no Japão também há tantos outros artistas renomados que se especializaram em desenhar ou escrever. Entre autores desse tipo, um dos maiores roteiristas que já surgiu no Japão atende pelo nome de Kazuo Koike, nome artístico de Seishuu Tawaraiya

Nascido em 8 de maio de 1936, em início de carreira trabalhou com auxiliar no estúdio de Takao Saito, do mangá Golgo 13, com quem muito aprendeu. Com o desenhista Goseki Kojima, criou o clássico Lobo Solitário, em 1970, que está sendo republicado atualmente no Brasil. Com esse personagem, entrou na área de roteiros para cinema, escrevendo a adaptação de sua criação, que estreou nas telas em 1972. Muitos outros filmes vieram e Koike acabou roteirizando criações de outros autores também. 
Lobo Solitário: A obra máxima de
Kazuo Koike, parceria com o
igualmente genial Goseki Kojima.

Outro trabalho célebre de Koike, desta vez em parceria com o desenhista Kazuo Kamimura, também foi lançado no Brasil. É Lady Snowblood (Shura Yukihime, 1973), uma violenta história com uma guerreira implacável, publicada no Brasil como Yuki - Vingança na Neve, através da editora Conrad, com seis volumes editados entre 2006 e 2007. 

O mangá foi adaptado em dois filmes (em 1973 e 74), lançados em DVD no Brasil como Lady Snowblood - Vingança na Neve. A obra influenciou o diretor Quentin Tarantino em sua obra Kill Bill
Crying Freeman: Uma das mais
famosas obras de Kazuo Koike, em
parceria com o desenhista
Ryoichi Ikegami.
Com Ryoichi Ikegami, produziu a saga Crying Freeman (1986), que já foi publicado parcialmente (4 volumes) no Brasil nos anos 1990 pela editora Nova Sampa. Depois, entre 2006 e 2007, teve seus 10 volumes publicados na íntegra pela Panini Comics/ Planet Mangá

A obra, de teor bem adulto, teve uma versão em animê e duas em live-action, sendo uma delas assinada pelo francês Christophe Gans e estrelada por Mark Dacascos em 1996. 

As versões cinematográficas ou televisivas acabam sempre atenuando uma característica das obras de Koike: a combinação sexo e violência. Em Freeman, era apenas certa poesia visual e a censura editorial japonesa que impediam representações de sexo explícito. 

Sendo mais conhecido por seus mangás para leitores adultos (a maioria desconhecida no Brasil), Kazuo Koike também tem seu próprio herói de tokusatsu para o público infanto-juvenil. 

É Denjin Zavorger, que ele criou junto com Souji Ushio, também conhecido como Tomio Sagisu, criador de Spectreman e Lion Man, entre outros. O herói teve série em 1974 através da P-Production e ganhou remake cinematográfico em 2011. Curiosamente, nessa série ele não escreveu nenhuma história específica, apenas criou a concepção geral do enredo. Mas antes de Zavorger, ele já havia trabalhado com tokusatsu.
Cartaz do filme para cinema
de Denjin Zaborger, um herói
clássico do tokusatsu.
Spectreman teve a honra
de ter dois episódios
escritos por Kazuo Koike.
Alguns anos antes, em Spectreman (1971), Koike roteirizou os episódios 5 e 6, que formam o arco "O exílio de Spectreman", no qual o herói é punido por se recusar a matar uma família que portava uma doença contagiosa que poderia exterminar a humanidade. Quando o herói aceita a missão e está prestes a matar um casal e seu filho por um bem maior, é impedido pelos Dominantes, que encontraram uma cura confiável. Episódio pesado, bem ao gosto de Koike.

Um estudioso da arte da narrativa, Koike criou a Gekigá Sonjuku, um curso de mangá no qual ele enfatiza a criação de personagens consistentes como a base para a produção de uma boa série. Entre seus alunos mais famosos estão Rumiko Takahashi (Inu-Yasha, Ranma 1/2) e Tetsuo Hara (Fist of The North Star). 

No início dos anos 1970, trabalhou em uma versão em mangá do Incrível Hulk, em uma das empreitadas da Marvel Comics em território japonês, que também contou com o Homem-Aranha de Ryoichi Ikegami. Koike voltaria a produzir um roteiro para a Marvel já na condição de grande astro em 2003, na revista X-Men Unlimited #50

Escritor versátil, também roteirizou mangás sobre golfe e mahjong, jogos que pratica como hobby. Para a TV e cinema, roteirizou filmes e dramas seriados, sendo ele o criador ou não. Koike se tornou um roteirista completo, capaz de transitar do drama histórico ao puro trash violento. Mas a maior prova de sua versatilidade são seus trabalhos como letrista de músicas. 

Ele escreveu as letras de canções que tocaram em diversas adaptações em live-action de Lobo Solitário. É dele também as letras de algumas canções dos robôs gigantes Mazinger Z e Great Mazinger, animês criados pelo mestre Go Nagai. Também escreveu a letra de "Shura no Haná" ("Flor da batalha"), tema do live-action de Lady Snowblood, que inclusive tocou em Kill Bill. No tokusatsu, escreveu as letras para os temas de abertura e encerramento das séries Super Sentai Denziman, Dynaman e Goggle V. Infelizmente, ele não escreveu roteiro para nenhuma dessas produções. 
Goggle V: Uma das produções que tiveram a participação
de Kazuo Koike compondo as letras de músicas da série.
Sempre antenado com o mercado, teceu altos elogios a Madoka Magica, o cultuado animê de Gen Urobuchi que levou sangue e terror ao normalmente colorido e pueril mundo das chamadas "garotas mágicas". Chegou inclusive a dizer que gostaria de escrever algo desse tipo. O que não seria surpresa, dada sua preferência por histórias viscerais e de impacto. 

Atualmente com 80 anos, o velho mestre não pensa em se aposentar. Sendo um dos maiores autores vivos de mangá, para Kazuo Koike ainda há muitas histórias a serem contadas. E isso ele faz como poucos. 

Site oficial (em japonês)www.koikekazuo.jp 


::: E X T R A S :::

1) Entrevista de Kazuo Koike para o site Omelete, em 2013:




2)  "Shi ni Fuu ni Mukau Ubaguruma", traduzida nos EUA como "Baby Cart to the Hades", é a canção-tema homônima do subtítulo do terceiro filme do Lobo Solitário, de 1972. A música é cantada por Tomisaburo Wakayama, o Itto Ogami em pessoa.
- Letra: Kazuo Koike / Melodia: Hiroshi Kamayatsu

Atenção: O vídeo contém cenas fortes de violência. 



3) "Shura no Haná", tema de Lady Snowblood, cantado pela atriz principal, a bela Meiko Kaji (1973).
- Letra: Kazuo Koike / Melodia: Masaaki Hirao

Atenção: Contém cenas fortes de violência.



4) "Dai Sentai Goggle V" ("Esquadrão Gigante Goggle V"), ao vivo com o excelente MOJO, no show Super Sentai Spirits 2004.
- Letra: Kazuo Koike/ Melodia: Chumei Watanabe


6 comentários:

Bruno Seidel disse...

OMG!!! Ele escreveu os temas de Google Five, Denziman e Dynaman??? Por essa eu não esperava mesmo. E também nunca seria capaz de imaginar uma coisa dessas, até porque são produções que destoam bastante do estilo que o consagrou como o lendário roteirista de Lobo Solitário.
O Zaborger, por sua vez, já tem um pouco mais da "cara" dele.

Muito legal ficar conhecendo mais sobre a carreira versátil e talentosa desse mito da cultura japonesa!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!

Eu fiz muita questão de destacar esse lado da carreira do Kazuo Koike para mostrar que ele não é um autor intelectual preconceituoso. Ele tem uma reputação inatacável como autor de obras densas e adultas. E também se diverte pegando encomendas como esses temas de Super Sentai que citei.

Eu acho muito legal essa característica de autores japoneses, de encarar também trabalhos fora de sua linha normal de atuação. Lá não tem essa de patrulhamento cultural e tudo acaba se interligando em algum ponto.

Abraço!

Max Andrade (PAAF) disse...

O Crying Freeman foi publicado na integra pela Panini mais tarde, lá pelos 2008 se não me engano!

Alexandre Nagado disse...

Tem toda a razão, Max. Foi entre 2006 e 2007, pelo que pude apurar.
Isso passou batido porque foi uma época em que eu estava meio afastado das novidades do mercado. Já corrigi o post, obrigado!

Abração!

Ricardo disse...

Ótimo texto. A única conexão que eu tinha conhecimento do Kazuo Koike com o tokusatsu foi o fato de ter escrito os episódios 5 e 6 de Spectreman. Não tinha ideia do envolvimento dele na elaboração dele com Zaborger, e muito menos na composição desses temas de sentais.

Aliás, uma pena que essa relação do Koike com a P Productions não tenha gerado nenhum roteiro para Lionman, seria o veículo ideal para ele.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Ricardo. Obrigado pela participação!

Graças a você, eu lembrei dessa passagem do Spectreman. Eu havia lido isso muito tempo atrás e, por descuido meu, isso ficou de fora do texto final. Até hoje, porque eu escrevi um parágrafo novo, incluindo essa informação.

Valeu! Abraço!