terça-feira, 19 de março de 2013

Hiroshi Watari, herói do tokusatsu - Bastidores da 1a visita ao Brasil

Nascido em 20 de março de 1963, Hiroshi Watari é um ator e dublê icônico do tokusatsu da década de 1980. Começou trabalhando como dublê do JAC - Japan Action Club e estreou como ator numa pequena participação em Space Cop Gavan (1982). Seu personagem, Den Iga, foi o protagonista da série sucessora de Gavan, o Sharivan (83), seu papel mais famoso no Japão até hoje. Depois, foi Boomerman, um coadjuvante de peso em Jaspion (85) e novamente protagonista em Spielvan (86), fora participações especiais em Sheider (84), Metalder (87), Wecker (2001), Boukenger (2006), Kamen Rider W (2009) e muitas outras produções no gênero tokusatsu. Também fez trabalhos fora desse nicho, como a versão japonesa do famoso musical da Broadway, Miss Saigon, além de dramas e filmes variados. Mas é no mundo do tokusatsu que é considerado um astro eterno. 

Em julho de 2003, esteve no Brasil ao lado dos cantores Hironobu Kageyama Akira Kushida para participar da primeira edição do festival Anime Friends, da empresa Yamato. Na ocasião, estive bastante envolvido com vários aspectos do evento. O trabalho foi extremamente desgastante para mim e me fez reconhecer que eu não nasci pra lidar com organização de eventos. Tudo o que me comprometi a fazer foi bem feito, mas o desgaste foi excessivo. 

De compensações, além da sensação de dever cumprido, pude conhecer artistas japoneses que admirava há muito tempo. Dos três convidados, pude acompanhar melhor o Hiroshi Watari e consegui ouvir dele algumas informações e histórias, que pretendo compartilhar aqui. 


- Seleção de cenas de Watari (como ator e como dublê) na década de 1980


A chegada - Primeiro contato com o Brasil
Os artistas chegaram alguns dias antes do evento, no final de junho, e fomos buscá-los no aeroporto. No dia seguinte, houve um jantar de apresentação na casa do Ricardo Cruz, futuro membro honorário do JAM Project, a banda liderada por Kageyama. Lá, em ambiente familiar, pudemos ver aqueles caras extremamente acessíveis e simples, mostrando serem pessoas normais, sem afetações ou ataques de estrelismo.  E lá pude tentar trocar ideias com Watari, o que foi bem interessante.


Heróis da TV (1991): Boomerman
ao lado de Maskman
Em alguns momentos, sem intérprete por perto, tive que improvisar e misturar japonês, inglês e mímica (nessa ordem, que não é a ideal pra mim). A boa vontade em entender e se comunicar era louvável. 

Mostrei a ele um exemplar de um gibi no qual escrevi o roteiro em 1991. Era Heróis da TV - Maskman (Ed. Abril), com uma aventura solo de Blue Mask com Boomerman, personagem vivido por Watari em Jaspion. Na época, fazíamos encontros  entre os personagens licenciados pela mesma empresa. Ele se surpreendeu ao ver Boomerman na capa de um gibi brasileiro. Contei a ele que o personagem era bastante usado nas HQs produzidas na época, e que chegou a ter uma aventura solo em uma edição de Jaspion, escrita pelo Rodrigo de Goes

Watari, já sabendo de antemão que o Boomerman era popular aqui, trouxe uma roupa similar à original que usou em Jaspion para se apresentar no Anime Friends. Ele até perguntou para mim o motivo do personagem ser tão famoso por aqui. Afinal, ele apareceu em apenas 8 episódios de uma série semanal. Expliquei que a série foi uma febre absoluta, passava todo dia. No auge do sucesso, até 3 exibições diárias na extinta TV Manchete, o que fez com que aqueles episódios com o Boomerman fossem vistos dezenas de vezes por milhões de pessoas. Por isso ele era mais famoso no Brasil como coadjuvante em Jaspion do que como protagonista de Spielvan ou Sharivan. As citadas séries até fizeram sucesso, mas nada comparado à febre causada por Jaspion e Changeman

Watari em Spielvan (1986)
Entrevista especial
Depois, já no evento, eu e o Ricardo Cruz entrevistamos Watari no palco, num talk show muito divertido (na verdade, foram duas entrevistas). Lembro de como aquilo foi emocionante desde o começo. Antes da segunda entrevista, no segundo dia do evento, foi exibido um vídeo com cenas dele nas séries Jaspion, Sharivan, Spielvan e Wecker. Então, subi ao palco para anunciar a chegada do ator. A galera estava em polvorosa pra ver o astro. Não sei dizer quantos haviam, mas era MUITA gente, mais de 1500 pessoas, pelo que soube.

Quando ele entrou no palco, deu um salto e um chute vertical no ar. A ovação foi absurda. Depois, lembro-me dele comentando que nunca havia experimentado uma aclamação tão grande, visto que o público japonês é normalmente mais contido.



Eu e Hiroshi Watari, antes do
Anime Friends de 2003
Ao lado dele, sempre estava o tradutor Alberto Suzuki, grande fã de tokusatsu, que deixava a conversa fluir sem problemas e houve até perguntas do público. 

Watari contou sobre as condições em que ele foi chamado para ser Boomerman (no caso, a falta de tempo do ator principal) e revelou que o uniforme inicial foi desenhado por ele. Também contou que o primeiro par de bumerangues era grande demais para ser bem manuseado em uma luta e, a pedido dele, um par de armas menores foi providenciado. Quem assistiu, vai se lembrar dessa mudança. 

Foi no palco do evento que ele também revelou que, apesar de nunca ter se machucado feio numa cena de ação a trabalho, chegou a ter pinos de metal numa das pernas por conta de um acidente de moto. O tal acidente fora sofrido meses antes de Jaspion, durante um passeio. A certa altura, ele precisou tirar os pinos para não ter problemas ósseos no futuro, e isso acabou diminuindo a participação dele como Boomerman. O fato levou o roteirista Shozo Uehara a reescrever vários episódios com a série em andamento. Essas informações, divulgadas no Brasil pela primeira vez naquele evento, foram incluídas em matérias que escrevi e passaram a ser de conhecimento de toda uma geração de fãs.

Depois, subiu ao palco o dublador Élcio Sodré (Shiryu de Cav. do Zodíaco, Issamu Minami em Black Kamen Rider e RX), que cumprimentou Watari. Para Élcio, fazer a voz de Sharivan foi representativo, pois era a primeira vez em que ele dublava o protagonista de um seriado. E para Watari, também fora a primeira vez em que atuava como o personagem principal. Ali, no palco, Élcio deu o grito de transformação de Sharivan ("Raio Solar!"), enquanto Watari fez a coreografia e pose de transformação. Será que a garotada que estava lá tinha consciência do quão único e especial era aquele momento?

A apresentação foi finalizada com uma encenação de combate, feita com alunos da escola de dublês Águia de Fogo, tudo muito divertido, ainda mais pra quem, como eu, estava vendo tudo acontecer de muito perto.

Hiroshi Watari, junto com os cantores
Hironobu Kageyama e Akira Kushida
No show de encerramento, enquanto Akira Kushida cantava o tema de Sharivan, Watari subiu ao palco para cantar a segunda parte da canção. Vi marmanjos chorando nessa hora, pois isso nunca havia sido feito nem no Japão. Finalmente, no encerramento do evento, perante mais de 4 mil fãs enlouquecidos, Hironobu Kageyama, Akira Kushida e Watari cantaram juntos o tema do Jaspion. Foi histórico, e é uma pena que quase não existam registros filmados disso. Quem estava lá, tem muitas histórias para contar.

Já conheci diversos artistas estrangeiros, mas posso dizer que ter conhecido Hiroshi Watari foi um dos momentos mais divertidos do meu trabalho ligado à cultura pop japonesa. 


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Bônus 1: Confira aqui, o relato da 1a visita ao Brasil de Hiroshi Watari, narrado por ele mesmo, traduzido para o português e com muitas fotos.

Bônus 2: Making of raríssimo de Jaspion, com muitas cenas envolvendo Watari.

Hiroshi Watari - Site oficial

15 comentários:

Diego Hatake disse...

Ah, deve ter sido demais... Sempre que leio isso dá uma invejinha, mas na época nem tinha como eu ir para um Anime Friends, ou até mesmo como sair da minha cidade pra ir. E agora pra conhecê-lo deve ser ainda mais difícil... Mas é bom saber que ele gostou daqui. O diário que ele fez é bem divertido. Só fico curioso sobre um ponto: a casa de show onde o levaram onde tinham "várias garotas de capas de revistas masculinas famosas"... Nada contra, mas tal casa não era uma casa de show adultos, né? Acho que não... Espero que não... XD
Enfim, deixando minhas viagens de lado, adoraria conhecê-lo mesmo. Eu não sou do tipo de pirar por qualquer artista, mas nesse caso acho que eu choraria só no "bom dia", hahahaha...

Ale Nagado disse...

Fala, Diego!

Hummm... essa casa de show, né... Eu não fui, então não posso falar nada, mas... (rs)

Mas falando sério, o Watari me causou boa impressão. Acho uma pena que a Toei tenha arranjado novo ator para o Sharivan no reboot dos Policiais do Espaço. Ele com certeza daria conta do recado.

Abraços!!

Bruno Seidel disse...

Justíssima homenagem a um dos atores de Tokusatsu mais queridos do público brasileiro. Eu estive no Anime Friends 2003 (lembro do Nagado subindo no palco pra advertir a pessoa que estava usando uma caneta laser, ameaçando expulsá-la do evento... hehehehehe). Sem dúvida, ver o Watari no palco fazendo poses de Sharivan, Spielvan e Boomerman foi um momento ÚNICO. Na época, haviam boatos de que ele não gostava muito de ser lembrado pelo Boomerman, já que o Jaspion não fez muito sucesso no Brasil. Diziam até que ele tinha um pouco de "vergonha" do Boomerman. Tenho certeza que isso aí foi só um boato maldoso.
Achei muito legal esse diário que ele fez da passagem dele aqui pelo Brasil.

PS.: Alguém sabe onde posso encontrar registros em fotos e vídeos do Anime Friends de 2003? Infelizmente naquela época a tecnologia não nos permitia ter registro em tão boa qualidade e de forma tão dinâmica como nos dias de hoje. Mas da minha memória, posso ter certeza, aquilo não vai sair nunca.

Ale Nagado disse...

Ah ah, essa da caneta laser eu nem lembro mais. Cara, eu estava num estado de nervos naquele evento... Eu estava coordenando o setor de workshops, mas também acompanhava os convidados nacionais (tivemos várias palestras, fora exposição) e tinha sempre que estar a par do que acontecia, pois entrevistei os convidados japoneses no palco. Eu já ia pedir um bumerangue pra jogar no engraçadinho da caneta... (rs)

Sobre a suposta vergonha com relação ao Boomerman, realmente não procede. Jaspion teve algum sucesso no Japão, ao contrário do que muitos já acreditaram, inclusive eu. Mas foi um sucesso passageiro, não se tornou uma série cultuada. Passou, os fãs do gênero viram e só. Nada comparado com a febre causada aqui, claro. Nem dá pra comparar.

Eu realmente lamento a falta de registros desse primeiro evento. Eu também nunca vou esquecer, foi bem legal. :-D

Abraço!!

The Metalhero disse...

Já se foram 10 anos, o AF nunca mais chamou atores depois dessa época. Eu tenho minha foto com ele, e um registro do show completo, e que showzaço! Bateu aquela saudade agora.

Ale Nagado disse...

Poxa, você tem um vídeo desse show? Se postar no YouTube, não esqueça de divulgar aqui. Eu (e muito mais gente) adoraria poder ver esse material.

Abraço!

Bruno Seidel disse...

Com certeza! Será muito legal poder rever esse show no Youtube.

A apenas uma correção: depois da vinda do Watari em 2003 ainda tivemos a volta dele ao Brasil em 2004, quando ele veio junto ao ator Takumi Tsutsui (o Jiraiya). Tsutsui ainda voltou ao Brasil em 2008, acompanhado do cantor Akira Kushida.

Isabelle de Oliveira disse...

Eu estava nesse dia memoravel. Realizei um dos maiores sonhos da minha vida. Lembro que no ultimo dia, no domingo eu fui uma das unicas autorizadas a passar o dia ali nos bastidores e na porta do camarim, devido a ter passado mal seriamente no show anterior do Kushida. Quando a porta abriu e o watari me chamou,ah que emoção! minha pernas bambearam eu o abracei e começei a chorar!!! lembro que ele até ficou com medo que eu desmaia-se. Foi emocionante e inesquecivel, meu primeiro amor heroi. Valeu muito a pena, foi sem duvidas o melhor evento de todos que eu fui. Kageyama, kushida e watari, sonho realizado!!!!
Abraços -Isabelle

Tati Santana disse...

Fantástico! Obrigada, Grande Alexandre, por compartilhar esse momento tão memorável e único! Hiroshi Watari aparenta ser uma pessoa simples, carismática e bem humorada, além de ser um ator fundamental da franquia Metal Hero, assim como Kenji Ohba. Gostaria muito de ter participado desse evento, mas desejo que ele possa ser convidados para outros no futuro!

Obrigada, Ale, por retornar com o Sushi POP... estava fazendo falta!
Abraços \o/

Anderson Alexandre disse...

Grande Nagado;

Bela matéria,eu estive lá e pude viver tudo isso que vc nos contou,foi algo totalmente mágico e inesquecivel pra todos os fãs presentes,quanto a essa revista que vc fala,tenho ela até hoje...ehheheeh
Abçs

Anderson Alexandre

alforje disse...

Mas que bela experiência de vida, Nagado! Sou teu fã incondicional!
Infelizmente, em 2003, eu era tão desligado de eventos do tipo que nem me dei conta do Anime Friends ou das presenças estrangeiras.
Esse teu relato tem uma importância documental fora do comum para o gênero Tokusatsu e para a cultura japonesa, principalmente em nosso país. Fico a imaginar o que você passou durante a coordenação do evento... e o quanto deve ter compensado.
Parabéns pela vivência e obrigado por compartilhá-la!

Ale Nagado disse...

Olha, se um dia eu escrever um livro de memórias, tenho muita coisa pra contar. No fim, são essas lembranças que fazem ter a sensação de ter vivido intensamente muitas grandes oportunidades.

Valeu!
Abraço!

Aniki disse...

Caramba, Nagado. Tirou as traças e a teia de aranha dessa época hehehe.

10 anos, mas lembro como se fosse ontem. Estive presente em todos os dias do evento(sempre usando um bonezinho com o nick que carrego até hoje, embora já não faça tanto uso dele) e a apresentação realmente foi o máximo. Na época eu imaginava que seria um passo a frente na realização de eventos no Brasil, no entanto creio que houve uma certa estagnação. E não acredito que isso mude daqui pra frente.

Mas só pelo fato do 1° Anime Friends ter arriscado trazer artistas ligados ao meio anime e tokusatsu o faz inesquecível.

Grande abraço.

Ale Nagado disse...

Aniki, há quanto tempo! Olha, eu preciso registrar memórias em algum lugar, antes que a idade me faça esquecer tudo, ah ah. Depois do primeiro evento, não acompanhei mais essa área, somente indo a eventos na condição de convidado, então não sei das dificuldades que tem pautado as decisões sobre convidados. Mas realmente, vendo de fora, não houve grandes avanços. Tudo ficou maior, com mais gente, mais atividades, mas não necessariamente inovador. Superar o impacto do primeiro é praticamente impossível, pois até então se achava que artistas japoneses não queriam vir pra cá ou que eram muito inacessíveis. Ponto pra Yamato, que quebrou esse paradigma.

Abração!

TokuReview disse...

Grande Alex material de primeira linha mesmo parabéns vamos esperar o melhor pra esse ano no AF. um abração.

Antonioks/Spielvan
TokuReview/Tokuadulto