quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Idolatria e perseguição no mundo otaku

O lado negro do culto às celebridades no Japão
Aya Hirano: De musa a alvo de ódio

Ser otaku no Brasil e no Japão possui significados diferentes e não tem necessariamente nada a ver com ser fã de mangá e animê, como ficou definido aqui. O otaku original é produto de uma sociedade rígida e altamente controlada e repressora como é a japonesa.  Muitos acabam tendo em algum hobby sua válvula de escape e a isso dedicam suas vidas de modo excessivo. No mundo pop, os artistas encaram, além dos fãs e admiradores mais tradicionais (ou “normais”), os chamados otakus idólatras, aqueles que vivem em função de seus ídolos de forma doentia. E isso leva a comportamentos perigosos em alguns casos extremos. Quando um ídolo pop - masculino ou feminino - se casa ou anuncia namoro, por exemplo, é comum que sua companheira ou companheiro receba ameaças de morte. 

Algumas gravadoras exigem que seus artistas sejam celibatários, apenas para manter aceso o sonho dos fãs. O otaku idólatra se sente traído se sua musa revela ter uma vida social ou amorosa. A dubladora, cantora e atriz Aya Hirano (Death Note,Suzumiya Haruhi), quando começou a posar para fotos eróticas, dar declarações picantes e virou assídua frequentadora de colunas de fofoca, começou a perder trabalhos e a ganhar ódio de outrora fãs. Esse nicho das dubladoras é um filão bastante explorado dentro da indústria do animê. É no Japão que os dubladores ganham um destaque como não existe em país algum. 

Atuando na adaptação de obras estrangeiras, mas principalmente colocando suas vozes em animês, os artistas chamados de “seiyuu” (dublador) começaram a ganhar as atenções da mídia depois do estouro da Patrulha Estelar (Yamato), no primeiro anime boom, o fenômeno de popularidade que impulsionou toda a indústria de animações no Japão no final da década de 1970. 
Revista Voicha, especializada
em idols e cultura pop
Dubladoras são tratadas como deusas por causa da voz angelical e envolvente que muitas colocam em suas personagens. Na cabeça do fã idólatra, é como se a dubladora fosse a versão em carne e osso da heroína, sua alma e sua personalidade. Mas há uma categoria de artistas no Japão que é vista e concebida para ser objeto de adoração. São as idols, cuja tradução grosseira para "ídolo" não mostra o significado que o termo tem em seu país. 

Uma típica idol é geralmente atriz, cantora e modelo. Muitas também se tornam gravure idols, modelos que posam para luxuosos livros e revistas estampando fotos com roupas da moda, trajes de banho e lingeries, sendo que muitas são meras adolescentes. Suas entrevistas são bastante controladas, o que elas vestem, suas opiniões, caras e bocas são minimamente planejadas. E todas elas são "criadas" para serem reverenciadas como bonecas vivas. 

Quase 30 anos atrás, a cantora Mari Iijima cantou músicas e dublou a heroína Lynn Minmay no clássico Macross. Para fugir da pressão da indústria, se mudou para os EUA onde desenvolveu uma carreira modesta, mas ela preferiu isso a ter sua vida controlada pelos fãs e empresários. 

Revistas especializadas em idols - como a Voicha (da Shinko Music Entertainment Co.) - estampam fotos e entrevistas com dubladores e esses ganham status de estrelas dentro de nichos de mercado. O destaque maior vai para as garotas de rosto mais delicado e algumas são realmente bonitas e com carreira paralela como atrizes ou cantoras. Mas mesmo as que não se encaixam no padrão de beleza corrente ganham superprodução para deixarem os otakus idólatras babando. 
Livro de moda do grupo AKB48, verdadeiro
catálogo de idols descartáveis
Vídeos são feitos com elas, onde é comum que a dubladora fique falando com a câmera (para o otaku sentir que a musa olha para ele), convidando-o a um passeio, a conhecer sua casa e fazendo refeições com ele, em clima de constante flerte e total sedução com voz e olhar. É como um encontro virtual, ou ao menos é assim que esses produtos – populares nos anos 1990, são vendidos. As artistas se beneficiam dessa estrutura, mas têm que manter essa aura de anjo virginal a povoar os sonhos de marmanjos que nunca tiveram uma companhia feminina real. E entre os otaku idólatras, há os stalkers – "perseguidores" – que causam arrepios em suas vítimas. Alguns invadem as casas, fazem coisas obscenas, enviam ora cartas de amor ora ameaças de morte e em alguns casos, obrigam a artista a se afastar do meio tamanho o tormento que eles trazem.

Recentemente, foram registradas muitas situações constrangedoras envolvendo integrantes do coral pop AKB48 em eventos de encontro com fãs (geralmente com fotos e aperto de mãos). Segundo denúncias das próprias integrantes, alguns otakus aproveitaram a proximidade na hora do autógrafo, foto ou cumprimento para dizerem obscenidades ou tentarem tocá-las de modo mais afoito. Isso provocou protestos e indignação de artistas e empresários da banda. 
Sayaka Yamamoto (NMB48)

Muitas dessas garotas estão apenas no colegial ainda, são menores de idade, mas posam de biquíni e lingeries provocantes para promover a banda. São bonecas usadas pela indústria, que irá descartá-las sem o menor peso na consciência quando não convencer mais a carinha de virgem sonhadora de olhos arregalados. 

Ainda meninas, são jogadas ao estrelato e depois ao anonimato. Algumas conseguem se manter como atrizes de novelas - os doramas -  outras se casam e viram donas de casa e algumas caem no mercado pornográfico. Poucas conseguem consolidar uma carreira ao longo dos anos, combinando talento, jogo de cintura e equilíbrio emocional. A maioria desaparece na multidão. A pressão sobre as garotas é bem maior do que sobre os rapazes e existem idols masculinos que passam dos 30 anos e continuam com seu público, caso da banda SMAP. Com as garotas idols, não basta serem bonitas, precisam ser jovens e de aspecto virginal. 

Como o índice de suicídio entre artistas é grande no Japão se comparado a outros países, dá para se imaginar como é viver entre a pressão para se manter no mercado – para ser descartado depois - e preservar a sanidade perante os fãs dos mais variados tipos. É o preço a se pagar em um sistema que incentiva e explora o fanatismo e a idolatria, onde muitos artistas são tratados como meros produtos de vida efêmera. 

17 comentários:

Super Gisele - ジゼレ disse...

Tendo convivido com alguns artistas japoneses, posso dizer que sei o que é isso... deu vontade de chorar quando li teu texto!

A realidade no Brasil é completamente diferente, até pq, as fãs brasileiras estão se lixando se o cara é casado! Adultério serve pra isso mesmo! E algumas, julgam isso até "mais gostoso"!

Viver entre as duas culturas e entender as diferenças pode ser extremamente difícil, quando só se faz parte de apenas uma delas!

Adorei o texto!

João Aranha disse...

Infelizmente, é uma realidade que vemos no Japão e que tem uma semelhança com o Brasil. A diferença é que aqui nós nao somos tão retraídos e as coisas são feitas na frente de todos. Isso tem que ser combatido e o artista (por pior que ele seja) respeitado.

Mestre Ryu Kanzuki disse...

Meus parabéns, Nagado. Como sempre um ótimo trabalho. Adorei o texto. E você poderia escrever um filme sobre Cultura Pop Japonesa. Os Japoneses são tão rígidos que são capazes de tirar sua própria vida do que viver um fracasso. Nossa! Os Brasileiros realmente não sabem o peso que tem ao chamar alguém de Otaku ou Stalker (nesse caso, o mundo Cosplayer em relação ao certos "fãs"). São palavras de peso no Japão, mas aqui, no verde e amarelo, o lance, aparentemente, é mais suavizado. O termo Otaku é mais pra quem curte ou faz parte de um grupo de Anime e Tokusatsu. E Stalker, em sua maioria, para os estranhos curiosos (já vi esse termo ser usado apenas pra pura brincadeira). Realemnte o Brasileiro não sabe o peso que eles possuem em sua terra de origem.

Michel disse...

Ótimo texto, Nagado! Sou suspeito pra falar alguma coisa, pois vivo nesse meio otaku, e parte do meu suado dinheirinho é que sustenta esse mercado. Embora eu, de longe, não seja um "idólatra", não faço restrições a forma como esse mercado se desenvolve. É indiferente pra mim. Tenho minhas dubladoras, cantoras e atrizes preferidas, compro CDs, leio entrevistas e fica por isso mesmo. Tenho a cabeça no lugar, acho...rsrsrs! Mas não nego que acho legal, quando as dubladoras acabam sendo a cópia fiel da graciosidade do personagem. E não é só com as novinhas não! Lembro-me que no Wonder Festival de 2005, a dubladora Kikuko Inoue (47)apareceu vestida de Maid, para delírio dos fãs. E ela se apresentou como Kikuko Inoue, 17 anos! (De carreira). Parecia que eu estava vendo a Belldandy na minha frente...HeHeHe!

P.S.1: Estou me viciando nas garotas do "Idol Unit", RO-KYU-BU!.
P.S.2: Já sou viciado no game/anime IdolM@ster!
P.S.3: Detesto AKB48 (e seus derivados)!

Alexandre Nagado disse...

Michel, bem lembrado esse caso da Kikuko Inoue. Eu vi fotos recentes dela. Essa mulher é um fenômeno. Quase 50 anos e ainda mantém jeito de garotinha sem forçar a barra, tipo a Mami Ayukawa (cantora). Kikuko Inoue soube conduzir bem a carreira, sempre no topo, sempre com tranquilidade e simpatia. O caso dela é mais raro, já que a maioria que é lançada no meio, fica poucos anos e volta ao anonimato.

Eu acho legal poder acompanhar as novidades desse nicho no seu blog, porque seu ponto de vista é desencanado. Ou seja, você é um consumidor desse universo, mas não se deixa envolver com o lado mais negativo e obsessivo da cultura otaku.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Gisele, João Aranha, Mestre Ryu e Michel, obrigado pelo incentivo.

Espero poder criar mais textos assim, na medida que o tempo me permitir.

Abraços!

Bruno Seidel disse...

Interessante o post! Pessoas não muito familiarizadas à cultura japonesa certamente reagiriam de forma muito negativa a elementes tão "estranhos", peculiares da cultura nipônica. É curiosoafirmar também que várias atrizes de Tokusatsu (principalmente vilãs de Super Sentai) já fizeram filmes eróticos/pornôs (algumas antes, outras depois): Nao Oikawa (Kegalesia de Go-Onger), Kei Mizutani (Shelinda de Gingaman), Jo Asami (Shiborena de Megaranger), Rika Mizutani (Zonette em CarRanger) e até algumas bem conhecidas no Brasil, como Naomi Morinaga (Annie de Sahider e Ellen, de Spielvan) e Yuriko Hishimi (Anne de Ultra Seven).

PS.: Super Gisele por aqui?? Quem é viva sempre aparece! HuEhuEhUEhUEhe! ^^

Robinson Oliveira disse...

Realmente muito bom post Nagado. Parabéns!!! Trabalho num meio que o visual do anunciante é de inteira importância para o sucesso do produto. O consumidor pedi isto, quer dizer, neste Mundo que o "capital" fala mais alto acaba determinando em sua grande maioria o fomento na mente humana para um consumismo desenfreado. Acredito também que não seja muito diferente do Japão para o Brasil respeitando sua proproção e economia em desenvolvimento, isto num sentido global.

Lady Severus disse...

Adorei este post.... realmente chocante, mas não se pode esperar menos da cultura japonesa...

Hakeru-chan disse...

Post interessantíssimo! Eu já tinha lido algo sobre, mas é sempre chocante ler a que ponto as coisas chegam. Sempre tive noção que grupos (?) como o AKB48 são feitos somente pra se vender rostinhos fofos - enquanto eles são fofos, claro - nada além disso. É praticamente um comércio de pessoas, que obviamente só sobrevive porque os japoneses pedem por isso. E é deprimente ver que muitas dessas idols não conseguem ser nada mais do que esses rostos fofos, e acabam na indústria pornô...

Fora as dubladoras também. Já vi fotos de algumas que não se encaixam nesse conceito de serem "kawaiis" (tipo a Junko Takeuchi); me pergunto como ela e outras "sobrevivem" nesse meio O.o
Isso também me lembra a Azuki de 'Bakuman', começando a carreira de dubladora num anime obscuro, num horário obscuro, e ela tendo que dançar e cantar num clipe - e depois sendo convidada pra fazer essas tais fotos que você citou. E olha que dizem que Bakuman não fala "toda" a verdade, imagino se falasse o.o

hamletprimeiro disse...

Ótimo artigo. Foi impossível. Não. Lembrar do excelente Perfect Blue ao lê- lo. Há um pequeno romance de FC, chamado Idoru, no qual o mestre do gênero, William. Gibson, usa esse aspecto da cultura pop japones como inspiração. Recomendável.

hamletprimeiro disse...

Nossa, esse meu post saiu um tanto truncado. Desculpe Nagado. Obviamente o que eu quero dizer é:Foi impossível não lembrar do excelente Perfect Blue ao lê-lo.
Só para ficar claro o nome do escritor é William Gibson e creio que Idoru foi publicado aqui pela Editora Aleph.

Alexandre Nagado disse...

Não se preocupe, entendi a mensagem. Eu lembrei de Perfect Blue por ter lido matérias a respeito. Mas ainda não assisti e certamente terei muitas observações a fazer quando puder conferir.

Obrigado também pelo registro sobre Idoru, não sabia mesmo.

Abraços!

telma disse...

Gostei muito do post, já tinha ouvido falar de stalkers e os grupos que vendem uma idéia de perfeição com rostinho bonito ...
Há alguns anos acompanhava o trabalho de seiyuu e falavam que não bastava ser bom dublador, tinha que ter outras qualidades além de um rosto bonito, e na época fiquei assustada, agora deve estar muito mais difícil.
Ps. Depois de ler, eu também lembrei de Perfect Blue....

Parabéns pelo post.

Alexandre Nagado disse...

Obrigado, Telma.

Recomendo também outro artigo, onde falo sobre o AKB48:

http://nagado.blogspot.com/2012/05/sobre-febre-akb48.html

Espero que goste.

Abraços!

Rafhael Victor disse...

Ótimo texto.

Deixo aqui a recomendação do, já citado, excelente Perfect Blue, facilmente um dos meus filmes preferidos, pérola do falecido Satoshi Kon. Nele são retratadas toda a exploração e pressão por quais uma garota imersa nesse mercado precisa passar. O assédio por parte dos fãs, o fanatismo, o "jogo de cintura" que precisam ter para manter as aparências, a insegurança quanto à carreira, a transição de idol à atriz, e por aí vai. Além, é claro, de um suspense psicológico de colocar qualquer diretor hollywoodiano de joelhos, e uma direção fenomenal.

Alexandre Nagado disse...

Valeu, Rafhael.

O outro lado da industria de sonhos que é o mundo das idols é algo meio opressivo, doentio. É um tema dificil e pesado, mas Satoshi Kon pegou a tarefa e fez História.

Abraço!