sexta-feira, 11 de setembro de 2009

DESENHANDO PROFISSIONALMENTE

É impossível falar do meu trabalho com HQ sem mencionar o  quadrinhista Arthur Garcia, autor de uma grande variedade de cursos de desenho publicados pela Editora Escala e premiado em 1990 com o Troféu O Mosquito (Festival de Amadora, Portugal) e duas vezes com o Troféu Angelo Agostini, sendo em 1994 como roteirista e em 95 como desenhista.

Trabalhamos juntos no começo dos anos 90, com ele desenhando roteiros meus para Maskman e Changeman, da Ed. Abril. Em 1993, começamos uma parceria com Street Fighter, para a Ed. Escala, que se tornou nosso trabalho mais popular. Em 1995, quando editei a revista Master Comics (Ed. Escala), convidei ele para produzir sua série Pulsar, da qual eu era grande admirador. Em 1997, ele desenhou a minisserie de meu personagem Blue Fighter, para a Trama Editorial. Em 2003, foi um dos primeiros nomes que chamei para o álbum Mangá Tropical (Via Lettera).

E até hoje sempre nos falamos, compartilhando nossas percepções sobre o mercado. Durante um de nossos papos, ele comentou que já pensou em montar um blog, mas que não teria tempo e paciência para atualizações regulares, mas que tinha alguns textos antigos e já utilizados que gostaria de compartilhar com uma nova geração de leitores. Então, atendendo a meu convite, ele enviou alguns textos e selecionei um para entrar aqui no Sushi POP, que tem um espaço para eventuais autores convidados. É um texto que eu gosto muito e fala sobre o maior desafio em ser um desenhista profissional. Para ler e refletir:


VOCÊ CONSEGUE DESENHAR ISTO?

Se eu tivesse ganhado mil reais por cada vez que ouvi esta pergunta nos últimos vinte e tantos anos, provavelmente já estaria rico e aposentado. Este, como vocês bem podem imaginar, não é o caso.

Toda vez que sou convidado a dar uma palestra em uma escola de desenho, a minha mente invariavelmente inicia uma viagem no tempo que me leva de volta a dois momentos distintos do passado. 

Em um deles, estou em 1989, na cidade de Angoulème, na França (onde anualmente se realiza uma das principais convenções de quadrinhos da Europa), mostrando o meu portfólio a dois artistas franco-canadenses que se espantavam com a diversidade de estilos nele contida. No outro, eu tenho dezesseis anos e, sendo um fã incondicional de John Byrne e quadrinhos de super-heróis, tento aprender a mecânica do desenho de Mônica e Cebolinha para produzir algumas amostras que possam ser apreciadas por um profissional do estúdio de Maurício de Sousa que eu acabara de conhecer. 

O motivo destas duas lembranças virem à minha mente, de algum modo interligadas, quando sou convidado a falar para aspirantes à profissão de quadrinhista, se explica pelo fato de que pela primeira vez, naquele ano de 1989 na França, me dei conta de ser um artista versátil. E que, mais do que uma escolha pessoal, isto se deu por uma imposição do mercado já na minha primeira exposição a ele. Como já disse anteriormente, desde a mais tenra idade sempre fui um fã dos quadrinhos de super-heróis, mas quando tentei adentrar ao mercado de trabalho como artista, descobri que ele era praticamente dominado pelo estilo infantil (ou “bonequinhos”, como muitos de nós o chamamos). Assim, sem ter muita escolha, fui a campo e aprendi a lidar com este tipo de desenho e, sem que me desse conta, me tornei um proletário das artes. 

No entanto, maravilhosa como possa parecer a idéia de se tornar um profissional do lápis e do pincel, esta traz embutida uma responsabilidade que muitos jovens artistas parecem não perceber: você vive do que produz; ou seja, se não tiver trabalho, não terá comida na mesa.
Esta idéia pode parecer aterradora num primeiro momento, mas é por isso mesmo, que toda vez que dou uma palestra em uma escola, sugiro aos jovens aspirantes que gastem um tempo ponderando a respeito da mesma. Isto evitará muitas desilusões. 

Foi por reconhecer o caráter comercial da nossa profissão que sempre estive pronto a travar conhecimento com novos editores, produtores e agentes, os quais, após uma consulta ao meu portfólio, invariavelmente me mostravam o tipo de trabalho que desejavam e sacavam contra mim a já referida pergunta: “Você consegue desenhar isto?” 

Como conseqüência, desenvolvi trabalhos para uma infinidade de meios: quadrinhos, publicidade, licenciamento, cartum, animação e ilustração, para o Brasil e o exterior, sempre alargando as fronteiras de estilos que pudessem ser de mim exigidos, nos prazos desejados e na qualidade requerida. 

Daí o meu conselho a todos os aspirantes a artista que encontro: tentem ser ecléticos. Independente de seus gostos pessoais (e eu não estou a pedir que os abandonem), tenham certeza que saberão desenhar tanto um pato de verdade quanto um Pato Donald. Num mercado instável como o nosso, quanto maior for a sua habilidade artística, menor será a chance de você ficar sem trabalho e ouvir uma outra pergunta muito desagradável sendo endereçada a você: “Quando vai pagar o que me deve?" 

P.S. : Anos atrás, durante minha estada em Portugal, descobri que Derib, um famoso desenhista suíço que realizou um ótimo faroeste realista (Buddy Longway), começou a sua carreira como desenhista no estúdio de Peyo, o criador dos Smurfs, o que lhe fez desenvolver uma versatilidade invejável.

P.S. 2: Vocês sabiam que um dos primeiros trabalhos de John Byrne foi a quadrinização da série “Carangos e Motocas” (Wheelie and the Chopper Bunch) da Hanna-Barbera, para a Charlton Comics?


- Arthur Garcia   

5 comentários:

LAUDO FERREIRA JR. disse...

Olá, Nagado.

Parabéns pela idéia de entrevistar o tremendo artista que é o Arthur. Seu depoimento é fundamental para muita gente mesmo, entender melhor a questão do profissional de desenho e do artista de quadrinhos.

Alexandre Nagado disse...

Valeu a força, Laudo. Um dia vou querer um depoimento seu também.

Abraços!!!

Guyferd disse...

O traço de Arthur Garcia é muito bom!
Graças a vocês, Street Fighter alcançou uma maturidade em termos de história que divertiu os leitores por tanto tempo.

Coisa que os americanos fracassaram com aquele fiasco que foi o escalpo do Ken...

Alex Mir disse...

O Arthur é um dos melhores desenhistas nacionais. Pena estar longe dos quadrinhos.

Cristiano Gomes disse...

caracas, eu meio que comecei a desenhar tb por inspiração nessas revistas! blue figther, pulsar, lembro saudosa master...nao durou muito, mas entrou para a historia